Valenciano comenta o racismo sofrido por Suéllen Rosim, prefeita eleita de Bauru

Na coluna “O Assunto é Política” desta quarta-feira, 2, o cientista político Tiago Valenciano voltou a falar sobre a representatividade das mulheres nas eleições de 2020, em específico, sobre o caso da prefeita eleita de Bauru-SP, Suéllen Rosim (Patriota). Ela é jornalista, tem 32 anos, evangélica, negra, com a postura conservadora. Segundo ela, durante a campanha não sofreu preconceito em relação a religião, a ser mulher, mas, por ser negra, sim.
“Mais uma vez é um caso lamentável da gente observar que a prefeita de Bauru sofrendo racismo. É interessante vez a própria trajetória da Suéllen, ela é uma prefeita que tinha um grande trabalho na mídia, ela é jornalista, jovem, ficou muito tempo em uma das principais redes de TV de Bauru, e esse tempo que ela ficou nessa rede de televisão ela acabou ganhando notoriedade, espaço na mídia, na empresa, depois ela continuou atuando como cantora gospel, sempre ligada ao segmento evangélico. Então, ela tem um habitus, digamos assim ao estilo de Bordieu, mais voltado para o conservadorismo, mais voltado nas questões da família”, contextualiza Valenciano.
“Agora, pelo fato dela ser negra, indifere se ela está querendo ou não atuar no campo conservador, um pouco mais à direita do que propriamente a esquerda diz. Vi alguns comentários, inclusive da internet, de pessoas atacando a Suéllen dizendo que o posicionamento político dela não condizia com as raízes negras do Brasil, e que esse posicionamento político é totalmente controverso com quem justamente acabou castigando os negros com a escravidão, que foi a classe conservadora brasileira”, aponta.
“A gente precisa ver, em primeiro lugar, que são momentos e aspectos diferentes da história política do País. De fato, a escravidão, pelo menos na minha óptica, o maior problema histórico do país. A questão da escrevidão, ligada necessariamente ao racismo, são os maiores problemas estruturais brasileiros e são questões, até hoje, não superadas pela própria sociedade brasileiras. Em segundo lugar, nós temos que ver que tivemos dois momentos distintos, um momento em que o conservadorismo, sendo escravo no Brasil do século XIX, é totalmente diferente falar do conservadorismo de um país livre, mas não tanto assim, em relação aos seus preconceitos em 2020. São momentos diferentes, relações diferentes, épocas diferentes”, explica o cientista político.
“É a mesma coisa que falar que pobre tem que ser, necessariamente, de esquerda. A própria esquerda critica muito isso e fala que é um absurdo o Brasil ter pobre de direita. Odeio esse tipo de expressão, porque é uma expressão, também, preconceituosa e não permite que as pessoas tenham os seus princípios ideológicos ou seus conceitos políticos de acordo com aquilo que elas defendem. Tanto o caso dos pobres de direita, quanto o caso do conservador negro, são duas questões que a gente precisa começar a conviver no país”, diz Valenciano.
