Por que o amor acabou?

Como estudioso da religião, de vez em sempre sou questionado sobre questões de gênero, sobre questões afetivas e sexuais. O interessante é que ninguém me pergunta “o que as religiões ensinam para amar mais e melhor, como podemos nos afetar de maneira mais divina ou sagrada”. Sempre me perguntam sobre as atitudes que julgam ser erradas, esperando encontrar na minha fala justificativas. Isso aponta pra mim como as pessoas são pequenininhas e como preferem o julgamento ao amor.
Tenho pra mim que a humanidade hoje é movida muito mais pelo desejo de poder do que pelo desejo de amor. Por isso a sociedade é estéril e as pessoas são desumanas. A força e a potência da vida que deveria estar voltada para o eros, são voltadas para o controle, para o governo, para o domínio. Inclusive, as relações a dois são majoritariamente guiadas pelo desejo de domínio. As pessoas buscam muito mais ter o outro para si do que dar-se a alguém como atitude de amor. Por isso não acredito nos “eu te amo”. Inclusive, não acredito nas mais diversas formas de “eu te amo”, pois inúmeros pais dizem a seus filhos que os amam, conquanto esse filho não seja gay, não seja de esquerda, ou ateu, ou adicto ou qualquer outra coisa que a autoridade paternal e maternal não possa dominar.
Essa não é uma característica dos nossos dias. Não tem a ver com as redes sociais, a internet, o choque geracional ou a pós-modernidade. Pelo contrário, hoje em dia a vida permite eventualmente que mulheres não se casem e não se reproduzam fora de suas vontades. É lógico que o domínio da liberdade financeira auxilia muito nesse processo, sendo que as camadas mais pobres ainda sofrem mais com as forças dos falsos amores. “Ah, mas meus avós foram casados por toda a vida, isso que era amor de verdade”. Sinto muito, mas não. Pelo menos uma dessas pessoas sofreu muito, possivelmente a mulher. É que a história é contada por quem tem o poder de domínio da narrativa, mas ninguém te conta das doenças que seu avô levou para o corpo de sua avó, das dificuldades financeiras que ela passou por conta das escolhas dele e surdões que foram dados no calor de alguma discussão.
Mas, antes que eu pareça um pessimista irremediável, te digo que eu acredito sim no amor. Existem pais que se orgulham incondicionalmente de seus filhos queer. Existem pessoas que se casam e passam a vida sem violências externas e sem grandes desrespeitos. Eu acredito no amor que deriva de um ser que se encontrou no mundo, que aceita e entende sua própria existência. E isso, acredito, é ainda a exceção.
Enquanto as pessoas insistem em buscar as definições de amor como sentimento, eu acredito que o amor seja atitude, mas um tipo de atitude que nunca pode ser feita por si só. Amar é aceitar-se e querer-se, é entender-se como peão da história da humanidade. Amar é ser parte ativa dessa loucura que é existir até que um dia, por um motivo qualquer, deixa-se de existir, e tudo bem.
O amor é a marca que uma pessoa deixa ao longo de seus poucos anos nessa vida. O resto é drama, fábula, magia, e motivo pra vender presente no dia dos namorados. Esse amor não acabou, ele nunca existiu massivamente. Nunca tivemos sociedades pacíficas e equilibradas, nunca vivemos em mundo sustentável e respeitado.
Se você aceitar ser exatamente que é, pode ser que sua vida seja uma luz de amor no meio do mar de escuridão que marca a história da humanidade. Esse amor é tranquilo, mas tão tranquilo que podemos chamá-lo de revolução. É o amor que não se diz, não se cobra, não se vende, mas se emana e se percebe com os dois pés bem firmes no chão. É o mesmo amor que está contido no choro da criança que nasce e no último suspiro de quem deixa a vida.
O amor é questão de ser. E tudo bem.
