Enquanto a PF investiga o passado, Americanas tenta provar que já é outra empresa
A segunda fase da Operação Disclosure recolocou a fraude contábil da Americanas no centro do noticiário na quinta-feira, 25. Mas, longe da frente policial, a varejista tenta convencer o mercado de que já é outra empresa.
Quase três anos depois do escândalo contábil, a gestão concentra esforços em uma operação menor, mais simples e orientada pela geração de caixa, eficiência operacional e rentabilidade. O Ebitda ajustado voltou ao terreno positivo, o prejuízo das operações continuadas encolheu 24,8% no primeiro trimestre e as lojas físicas passaram a responder por 95% da receita líquida da companhia.
Enquanto aguarda uma decisão da Justiça sobre o pedido de encerramento da recuperação judicial, protocolado em março, a companhia tenta deslocar a narrativa da sobrevivência financeira para a reconstrução do negócio. O desafio agora é provar que a transformação operacional começou a produzir resultados.
Nova etapa
A reconstrução começou pelo tamanho da empresa. Desde o início da recuperação judicial, em janeiro de 2023, a Americanas fechou mais de 400 lojas e reduziu sua rede de cerca de 1.880 para aproximadamente 1.448 unidades. A estratégia foi enxugar a operação, concentrar recursos em ativos considerados estratégicos e abandonar negócios que não entregavam rentabilidade.
O redesenho também passou pela venda de ativos. Em fevereiro, os credores aprovaram a alienação de uma série de imóveis, com valor estimado entre R$ 346 milhões e R$ 468 milhões. Pelo acordo, 60% do montante líquido que exceder R$ 200 milhões deverá ser destinado à amortização ou ao resgate antecipado de debêntures.
Em maio, a varejista anunciou a venda de 10 lojas deficitárias da rede Hortifruti Natural da Terra em São Paulo para o Oba Hortifruti por R$ 69,3 milhões. “A transação deve eliminar a queima de caixa da operação paulista da rede”, afirmou o diretor financeiro (CFO), Sebastien Durchon.
A companhia informou ainda manter negociações avançadas para vender as três lojas remanescentes da rede no Estado, concentrando a operação do Hortifruti no Rio de Janeiro.
Segundo Durchon, caso as vendas da Uni.Co e das lojas do Natural da Terra já estivessem refletidas no balanço de março, a dívida líquida da Americanas seria 29% menor, recuando para R$ 535 milhões. Mais do que levantar recursos, os desinvestimentos refletem a tentativa da companhia de operar uma estrutura menos intensiva em capital.
Volta ao centro
A reconstrução também passa por uma mudança profunda no modelo de negócios. Antes da crise, a Americanas apostava na expansão do marketplace e na oferta de um grande número de vendedores para ampliar escala no e-commerce. Agora, a companhia deixou de perseguir esse modelo e passou a usar o digital como extensão da operação física.
Em entrevista ao Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), em maio, o presidente da companhia, Fernando Soares, afirmou que a Americanas continuará operando um marketplace, mas concentrado em poucos e grandes vendedores, com estrutura logística própria e elevado nível de atendimento ao consumidor. “Não é a nossa estratégia ter 200 mil, 300 mil sellers como outros fazem”, afirmou.
A prioridade passou a ser o modelo O2O (online to offline), que conecta as vendas digitais às lojas físicas por meio da retirada em loja e das entregas realizadas a partir das próprias unidades. Segundo Soares, a margem dessa operação é cerca de três vezes superior à do marketplace tradicional, reforçando a decisão de concentrar investimentos nesse formato.
Na prática, a loja voltou ao centro da estratégia. Além de ponto de venda, passou a funcionar como base logística para atender pedidos feitos pelos canais digitais, aproximando a operação física do comércio eletrônico e reduzindo custos.
Essa mudança também aparece na composição das receitas da companhia. Em 2025, o varejo físico respondeu por 95% da receita líquida da Americanas, ante 91% um ano antes, enquanto a participação do digital recuou de 7% para 4%.
Primeiros sinais
A estratégia começou a aparecer nos resultados, embora a reconstrução da Americanas ainda esteja longe de concluída. O primeiro trimestre mostrou avanço das vendas e maior disciplina no controle de despesas, ao mesmo tempo em que a companhia continua registrando prejuízo líquido.
A receita líquida cresceu 20,2% no primeiro trimestre, para R$ 3,1 bilhões, enquanto o lucro bruto avançou 16,6%, para R$ 834 milhões. O Ebitda ajustado voltou ao terreno positivo e somou R$ 15 milhões, revertendo o resultado negativo de R$ 26 milhões registrado no mesmo período de 2025.
O controle de custos também começou a produzir efeitos. Embora as despesas com vendas, gerais e administrativas tenham aumentado 3,9%, para R$ 851 milhões, elas passaram a consumir uma parcela menor da receita líquida, recuando de 31,9% para 27,6%, refletindo ganhos de eficiência operacional.
Parte desse desempenho foi favorecida pelo calendário da Páscoa. Para reduzir essa distorção, a Americanas divulgou o indicador de vendas mesmas lojas dos quatro primeiros meses do ano, que mostrou crescimento de 7,8% na comparação anual.
A melhora operacional, porém, ainda não foi suficiente para levar a companhia ao lucro. A empresa encerrou o trimestre com prejuízo líquido de R$ 336 milhões nas operações continuadas, uma redução de 24,8% em relação à perda de R$ 447 milhões registrada no mesmo período do ano anterior.
Para Soares, o desempenho reflete o avanço da integração entre lojas físicas e digital, a evolução da relação com fornecedores, a expansão do programa de fidelidade Cliente A e o fortalecimento da área de serviços financeiros. O cartão da companhia movimentou mais de R$ 1 bilhão em transações em menos de um ano, com emissão superior a 100 mil cartões por mês.
Apesar da evolução operacional, a reconstrução da Americanas ainda está em curso. A segunda fase da Operação Disclosure evidencia que o passado da companhia continua produzindo novos desdobramentos. A empresa informou ao Broadcast que não foi alvo dos mandados de busca e apreensão cumpridos nesta quinta-feira e afirmou que seguirá colaborando com as investigações. Em nota, disse ser “a maior interessada no esclarecimento dos fatos”.
O desafio da atual gestão é conduzir essas duas frentes simultaneamente: colaborar com as investigações sobre a fraude contábil que levou a empresa à recuperação judicial e, ao mesmo tempo, convencer o mercado de que a Americanas que tenta sair desse processo já é uma companhia diferente daquela que entrou nele.
Contato: julia.pestana@estadao.comP
