Nós usamos cookies para melhorar a sua experiência em nosso site, personalizar publicidade e recomendar conteúdo de seu interesse. Ao acessar nosso portal, você concorda com o uso dessa tecnologia. Saiba mais em nossa Política de Privacidade.

02 de abril de 2026

Documentário sobre Caso Eloá discute o exagero midiático


Por Agência Estado Publicado 17/11/2025 às 08h15
Ouvir: 00:00

Não é exagero dizer que o Brasil parou para acompanhar os desdobramentos do sequestro de Eloá Cristina Pimentel, de 15 anos, por seu ex-namorado, Lindemberg Fernandes Alves, na época com 22. A jovem foi mantida em cárcere privado no apartamento em que morava com a família, em Santo André, na Grande São Paulo, de 13 a 18 de outubro de 2008. O sequestro terminou de forma trágica: Eloá morreu no hospital, após ter sido baleada na cabeça, e sua amiga, Nayara Rodrigues, foi atingida por um tiro no rosto.

Ainda há o que ser desdobrado sobre o tema. Ao menos é o que acreditam Cris Ghattas e Veronica Stumpf, diretora e produtora do documentário Caso Eloá: Refém ao Vivo, que estreou no streaming da Netflix.

O projeto ficou em desenvolvimento por dois anos, a partir de uma ideia original do roteirista Ricky Hiraoka. Em 1h25, o filme revisita os principais momentos do sequestro, com análises de alguns dos envolvidos: a família de Eloá, alguns agentes da polícia que participaram das negociações e profissionais da imprensa que entrevistaram Lindemberg para a televisão.

“Eloá foi assassinada em um momento em que o Brasil ainda não reconhecia o feminicídio. Lindemberg não foi julgado como feminicida”, pontua Stumpf, em entrevista ao Estadão. “Revisitar essa história deu voz para essa menina que foi tão negligenciada, de várias formas, durante todo o processo: pela polícia, pela imprensa e pela própria sociedade que viu ali um grande reality show.”

“Quando comecei a revisitar as informações do caso, em 2023, a gente estava em um recorde de casos de feminicídio no Brasil e hoje continuamos com o mesmo dado”, complementa Cris Ghattas.

De acordo com o Mapa da Segurança Pública de 2025, o Brasil faz quatro vítimas de feminicídio por dia.

“Como documentarista, acredito que é por meio do impacto e da emoção que a gente tem oportunidade de se rever como sociedade”, segue a diretora. “É a história de uma garota que lutou pela vida até o último segundo, pelo seu direito de dizer não. Mas também é uma história com a camada midiática, a camada governamental, de preparo da polícia. É a nossa oportunidade de, com distanciamento, rever nossos princípios e limites.”

Embora repasse as 100 horas de sequestro, e mergulhe nos altos e baixos das negociações conduzidas pela polícia – inclusive pelo momento em que, por um erro, Nayara retorna ao cativeiro -, o documentário também se propõe a falar um pouco mais sobre quem era Eloá. Trechos inéditos de seu diário ajudam a compor a figura da adolescente que temia pela segurança, pedia ajuda a Deus e também fazia planos para o futuro – que envolviam se casar com Lindemberg.

Complexidade

“Nós queríamos evitar o exagero de atenção ao assassino”, pontua a diretora. “Tentamos trazer uma amplitude de visões, porque é uma história complexa que precisa disso. Estamos, sim, contando a história de um crime, mas de forma humana. A gente não precisa da parte sádica.”

Para Veronica, responsável pelas negociações para conseguir os materiais de arquivo com a família, faltava um olhar para a dor da saudade que permanece. “Eu sempre achei que a família é muito sentida pela forma como o caso foi tratado”, opina. “Essa menina praticamente foi culpada pela própria morte. Meu compromisso com a família de Eloá sempre foi o de dar voz a ela.”

Estrela do momento

O momento em que Sonia Abrão faz uma entrevista ao vivo com Lindemberg no programa A Tarde É Sua, da RedeTV!, é considerado crucial para se entender a mudança nas negociações do sequestrador com a polícia. O contato direto da imprensa com o criminoso o teria feito se sentir “a estrela” do momento.

Lindemberg passou a ignorar os contatos das autoridades e a falar apenas por meio de programas de televisão. As negociações, que já não avançavam, ficaram ainda mais estagnadas.

Cris Ghattas e Veronica Stumpf analisam o documentário como uma oportunidade de observar o quanto a cobertura midiática e o entendimento público se transformaram a partir do caso Eloá.

Para a produtora, houve uma curva de aprendizado em relação à imprensa, mas ela também pondera que as coberturas com viés considerado sensacionalista não existem em um vácuo: “É impossível falar disso sem falar da sociedade. Não haveria imprensa sensacionalista se não houvesse um público que consome. O objetivo do documentário é fazer a gente rever por que se consome tanto isso de forma tão irresponsável e sem autocrítica. Seria muito pretensioso da minha parte achar que um documentário pode resolver todos os problemas, mas eu espero contribuir um pouco para essa reflexão”, torce.

Para a diretora, no entanto, o grande legado está regulamentado; hoje, a atuação da imprensa em casos de sequestro em andamento é limitada para não prejudicar o curso das negociações. “Não adianta a gente só apontar para um lado, todos nós aprendemos. Durante as entrevistas, tivemos muitos momentos de autocrítica, de revelações que ficaram indigestas. A imprensa questionou o seu papel. As pessoas têm direito à informação, mas qual é o limite disso?”, reflete Ghattas.

“Para mim, o que mais chocou foi ver que, depois de tantos anos, a sociedade ainda continua culpando a mulher pela própria morte e pela violência que ela sofre”, pontua Stumpf. “Ao revisitar o caso Eloá, ainda escutamos, algumas vezes de maneira sutil, ‘mas aquela menina tão jovem já namorava…’. Para mim, é muito triste identificar que nós mulheres ainda somos culpadas pelo nosso próprio infortúnio”, finaliza.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Pauta do Leitor

Aconteceu algo e quer compartilhar?
Envie para nós!

WhatsApp da Redação

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

GMC+

Ex-Fleetwood Mac é atacado por stalker com ‘substância desconhecida’; entenda


Lindsey Buckingham, ex-guitarrista do Fleetwood Mac, foi atacado com um líquido ainda não identificado na Califórnia, nos Estados Unidos, nesta…


Lindsey Buckingham, ex-guitarrista do Fleetwood Mac, foi atacado com um líquido ainda não identificado na Califórnia, nos Estados Unidos, nesta…

GMC+

Wagner Moura vai atuar com Kristen Stewart em novo drama de vampiros; saiba mais


Wagner Moura foi escalado para atuar ao lado de Kristen Stewart em Flesh Of The Gods, novo suspense vampírico do…


Wagner Moura foi escalado para atuar ao lado de Kristen Stewart em Flesh Of The Gods, novo suspense vampírico do…

GMC+

Morre Jonathan, animal mais velho do mundo com quase 200 anos


Morreu, aos 193 anos, Jonathan, uma tartaruga-gigante-das-seicheles. Nesta quinta-feira, 1º, seu veterinário fez postagem no X, comunicando o público. “É…


Morreu, aos 193 anos, Jonathan, uma tartaruga-gigante-das-seicheles. Nesta quinta-feira, 1º, seu veterinário fez postagem no X, comunicando o público. “É…