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02 de abril de 2026

Drama uruguaio debate a finitude tratando a morte com beleza e humor


Por Agência Estado Publicado 23/09/2022 às 11h00 Atualizado 20/10/2022 às 19h16
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Radicado na França, o dramaturgo uruguaio Sergio Blanco, de 50 anos, desenvolve um teatro voltado para a autoficção, gênero que nubla fronteiras entre o real e o imaginário. Uma de suas recentes criações, Cuando Pases Sobre Mi Tumba, foi destaque do Festival Mirada, realizado em Santos. O espetáculo, escrito e dirigido por ele, chega a São Paulo, no Teatro Anchieta – Sesc Consolação, nesta sexta, 23, e sábado, 24, às 21h, dentro do projeto Extensão Mirada.

Os atores Sebastián Serantes, Gustavo Saffores e Felipe Ipar protagonizam uma impactante reflexão sobre a finitude. Na trama, um escritor chamado Sergio (Serantes) procura uma clínica na Suíça para organizar o próprio suicídio assistido sob as orientações de um médico (Saffores). O último desejo de Sergio é que seu corpo, depois de enterrado, seja violado por um jovem necrófilo (Felipe Ipar).

O estilo narrativo surpreendente, já conhecido do público brasileiro pelas peças A Ira de Narciso e Tebas Land – dirigidas por aqui respectivamente por Yara de Novaes e Victor Garcia Peralta -, serve de base para uma encenação vigorosa e moderna. Em várias passagens, lembra um show de pop-rock com o trio de atores cantando e empunhando guitarras. Uma fina ironia e um final inesperadamente otimista, entretanto, desarmam o espectador diante do pesado assunto.

Cuando Pases Sobre Mi Tumba estreou em 2019 em Montevidéu com a intenção de celebrar a morte com beleza e humor. A façanha foi alcançada. Para o autor está na hora de as pessoas encararem a questão como algo inevitável. “Perdi minha mãe há três meses e, claro, atravesso uma fase complexa, mas sei que ela construiu uma belíssima vida e, aos 80 anos, é natural isso acontecer”, afirma.

POLÊMICA

A associação da necrofilia ao erotismo, no entanto, causou polêmica. Para o dramaturgo, há uma negação do desejo neste caso porque as pessoas não aceitam enxergar a ideia nas situações óbvias do cotidiano. “Existe um pensamento obsessivo pelo corpo dos mortos e isso é necrofilia, basta ver o fascínio em torno do funeral da rainha Elizabeth II ou o conto de fadas de Branca de Neve, por quem o príncipe se apaixona ao vê-la dormindo”, exemplifica.

Blanco afirma que a pandemia da covid não influenciou em nada a sua leitura do espetáculo. A crise sanitária serviu de inspiração, porém, para o trabalho seguinte, Covid-451, que foi escrito em dois meses e estreou em julho de 2020 em Barcelona. Os atores profissionais foram dispensados para colocar em cena um médico, um enfermeiro, uma assistente social e uma faxineira compartilhando histórias no formato conferência. “Temos de tomar consciência das nossas fragilidades. A perspectiva do fim pode dar um sentido à nossa trajetória e, para isso, a pandemia deveria ter-nos servido”, diz ele, que ainda estreou em Milão a peça Zoo, sobre a relação amorosa de um homem com um gorila.

Esse descolamento da realidade é encarado com naturalidade por Blanco, que confessa interessar-se pela suspensão dos fatos desde a infância.

Primeiramente, encantou-se pelo romance Robinson Crusoe, de Daniel Defoe, e descobriu a figura de Superman, ficando entusiasmado pela transformação do tímido Clark Kent em super-herói. “Gosto das coisas que deixam de ser o que são, por isso a autoficção me é tão sedutora”, justifica.

ERRANTE

Blanco se diz filho de uma geração que sonhava com um mundo sem fronteiras e se fez errante como cidadão e artista. Aos 19 anos, logo depois de dirigir em Montevidéu uma versão de Ricardo III, de Shakespeare, foi premiado com uma bolsa que o levou a Paris, onde vive até hoje. Ele conta 37 projetos pelo mundo afora. Um deles é o monólogo Tráfico, dirigido por Victor Garcia Peralta e protagonizado por Robson Torinni, que estreia no Rio no dia 3 de novembro. Indagado, sobre o que predomina nas suas autoficções – se a invenção ou a memória -, Blanco desconversa com uma boa explicação. “A mentira se potencializa no meu teatro, mas, afinal de contas, o que é o teatro se não um mundo de mentiras, em que o artista se passa por alguém e o público finge acreditar naquilo?”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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