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01 de junho de 2026

‘Gostaria de falar que meus filhos são protegidos, mas nem eu sou’, diz Taís Araújo


Por Agência Estado Publicado 01/06/2026 às 17h30
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Antes de começar a gravar a novela Vale Tudo, em setembro de 2024, a atriz Taís Araújo, de 47 anos, estabeleceu a meta que voltaria ao teatro assim que concluísse o trabalho. O projeto era retomar O Topo da Montanha, peça de Katori Hall, montada entre 2015 e 2019, ao lado do ator e marido Lázaro Ramos. A agenda do parceiro inviabilizou a ideia, e Taís pediu ao pesquisador e tradutor Diego Teza que encontrasse um monólogo para ter a autonomia de estar em cena quando bem desejasse. Como condições, ela queria um solo de uma autora preta, contemporâneo e pautado por conflitos que não se limitassem ao sofrimento e ao racismo.

Teza apareceu com cinco dramaturgias, e Mudando de Pele, da inglesa Amanda Wilkin, a segunda a ser lida, gerou um deslumbramento imediato. Sob a direção de Yara de Novaes, o espetáculo chega nesta quarta-feira, 3, ao Teatro Raul Cortez, do Sesc 14 Bis, em São Paulo com ingressos esgotados até a última sessão, prevista para 5 de julho. Em agosto, a produção retorna à capital em temporada no Teatro Faap.

A protagonista divide o palco com duas musicistas, Dani Nega e Layla, para interpretar Mayah. É uma mulher de 40 anos inconformada em seguir os padrões sociais que, em um único dia, perde o emprego, termina um relacionamento e se vê sem casa para morar. Nesta jornada de autoconhecimento, Mayah reconstrói a própria identidade e repensa sua ancestralidade. “A questão racial, claro, é atravessada, mas esta mulher não pode ser reduzida a isso”, afirma. “A gente precisa apresentar histórias que vão além do Brasil escravocrata para ampliar a temática preta.”

Taís quer contribuir para uma evolução das narrativas que, sob muita persistência, avançam nos veículos de comunicação. Vendo o filme Ficção Americana, do norte-americano Cord Jefferson, ela entendeu que há uma espetacularização da dor negra. Encontrou o mesmo eco nas músicas do rapper Emicida e do cantor Jotapê, assim como nos livros de bell hooks (1952-2021), Toni Morrison (1931-2019) e Sueli Carneiro e nas novelas de Rosane Svartman, que, mesmo branca, cria personagens negros com sensibilidade.

“Já percebemos que a teledramaturgia caminha muito bem, a publicidade, felizmente, é outra coisa e o jornalismo fala da população preta com mais cuidado”, observa. “Não posso negar que vivemos em uma época de efervescências e, como artista, é impossível fugir da responsabilidade de provocar estas reflexões.”

Mudança de mentalidade

A atriz é, sem dúvida, uma das responsáveis por essa gradual mudança de mentalidade. “O que tenho de parte neste momento é que aproveitei muito bem as oportunidades, levei o trabalho a sério, com disciplina e sempre agi de forma diplomática”, diz. Em 1996, aos 17 anos, viveu Xica da Silva na novela da extinta Rede Manchete, e, oito anos depois, interpretou Preta em Da Cor do Pecado, a primeira protagonista negra de uma novela da Globo. Também conquistou o primeiro papel principal de uma trama das nove, a Helena, de Viver a Vida, em 2011.

“Depois de tantos anos, o espectador liga a televisão e vê um Brasil em que a população negra é mostrada com a devida multiplicidade e não como uma massa única”, afirma. “Essa visão que o público carregou sobre os pretos foi construída pelos veículos de comunicação e eles têm assumido a responsabilidade nesta reconstrução.”

Como produtora de Mudando de Pele, a estrela colocou em prática discursos feministas que costumam permanecer na teoria. Com exceção do cenógrafo André Cortez, os demais nomes da equipe criativa são de mulheres – quase vinte. Segundo Taís, nunca houve uma palavra atravessada nos ensaios, todo mundo se ouvia e, mesmo nas discordâncias, Yara de Novaes conduzia com delicadeza os impasses. “São questões que a gente prega e parecem utópicas, mas conseguimos executar na prática e o processo deu certo.”

Do casamento com Ramos, Taís é mãe de João Vicente, às vésperas dos 15 anos, e de Maria Antônia, 11, e ela percebe a diferença na autoestima dos filhos comparadas a sua na adolescência. “Eles têm muitas ferramentas e se enxergam nas histórias que consomem”, compara. Saindo da porta de casa, porém, a artista reconhece os problemas de um país racista quando o mundo os recebe. “Eu gostaria de falar que meus filhos são protegidos pelos pais que têm, mas não é assim, aliás, nem eu sou protegida por ser a Taís.”

Filme sobre Elza Soares

Taís vai protagonizar e produzir junto com a O2, de Fernando Meirelles e Paulo Morelli, um filme sobre a vida da cantora Elza Soares (1930-2022). O roteiro ainda passa pelos primeiros tratamentos e nem a equipe foi escolhida. “Não tenho a menor pressa e só quero uma direção que imprima as características ousadas, rebeldes e artísticas da Elza”, projeta. Pensando em Elza, Taís cita Elis Regina (1945-1982) e Rita Lee (1947-2023), duas outras cantoras tão inquietas quanto. “Se é para ser artista, quero ser como essas mulheres que sempre falaram o que pensaram.”

Apoiada na popularidade e no prestígio, a profissional não foge do debate de questões que a incomodam. Garante que faz parte de sua personalidade e acredita na importância do diálogo desde que não machuque o outro. Em Xica da Silva, ainda adolescente, peitava as decisões do diretor Walter Avancini (1935-2001) e, depois de concluir Viver a Vida, revelou que não foi feliz na pele de Helena.

Na recente Vale Tudo, assumiu uma certa decepção com as adaptações na trama para a nova versão. Mesmo assim, considera Raquel uma das cinco melhores personagens de sua carreira, junto de Xica da Silva, Preta, a Maria da Penha de Cheias de Charme (2012) e a Michele Brau do seriado Mister Brau (2015/2018) e, como Taís quer mais é ser feliz, não evolui nas queixas. “Por causa das redes sociais, mudou a forma como as pessoas me enxergam e me sinto livre para mostrar que o artista não vive em um Olimpo e falar sobre o que acho importante”, diz. “O público passou a me conhecer mais e não supor coisas sobre mim.”

Serviço

Mudando de Pele

– Teatro Raul Cortez – Sesc 14 Bis (Rua Doutor Plínio Barreto, 285, Bela Vista, São Paulo)

– Quinta a sábado, 20h; domingo, 18h. Até 5/7

– Ingressos esgotados para toda a temporada

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