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13 de fevereiro de 2026

Vitória histórica do Grêmio Maringá sobre a União Soviética do lendário goleiro Yashin, no Willie Davids, completa 60 anos; relembre


Por Felippe Gabriel Publicado 13/02/2026 às 08h30
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No dia 13 de fevereiro de 1966, o extinto Grêmio Esportivo Maringá (GEM) vencia a União Soviética (URSS, traduzido do russo CCCP), em uma partida amistosa que marcou a história do futebol de Maringá.

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O gol da vitória do GEM sobre a seleção da União Soviética, de Edgar sobre Yashin | Foto: Acervo Maringá Histórica

Mais de 20 mil pessoas lotaram o Estádio Regional Willie Davids em um domingo, às 16h, e viram a vitória maringaense por 3 a 2, com dois gols de Edgar Belizário e um de Luiz Roberto. Do outro lado, a seleção soviética do lendário goleiro Lev Yashin, conhecido como “Aranha Negra”, também veio com o astro Metreveli, o “Garrincha europeu”, mas foram Shesternyov e Banishevskiy que marcaram os gols da equipe na partida.

O time soviético excursionava pela América do Sul em preparação para a Copa do Mundo em julho daquele ano, na Inglaterra, na qual terminou em quarto lugar. Foi a sexta partida da CCCP no Brasil, que antes perdeu para Corinthians e Palmeiras e venceu Atlético-MG, Cruzeiro e Uberlândia.

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Foto: Acervo MEM

O GEM estava em meio à sua pré-temporada e em 16 de janeiro empatou com o Palmeiras, então campeão do Torneio Rio-São Paulo, no WD. Além do confronto com os soviéticos, o período contou com mais dois amistosos internacionais, também com vitórias. No dia 30 de janeiro, o Grêmio venceu o Rapid Viena-AUS, equipe pentacampeã austríaca, por 4 a 3. Depois, triunfou sobre a Seleção da Romênia, por 2 a 1.

Equipes viviam seus auges

Naquele período, a União Soviética era uma grande potência do futebol e figurava como uma das favoritas ao título mundial. Os dias de sucesso começaram uma década antes, com o ouro olímpico em Melbourne 1956, e continuaram em âmbito continental, com o título da Eurocopa em 1960 e o vice-campeonato em 1964.

O Galo do Norte também viveu sua “década de ouro”. Fundado em 1961, o Grêmio havia se sagrado bicampeão do Campeonato Paranaense nas temporadas de 1963 e 1964, além do vice-campeonato em 1965 e 1967. Em 1968, venceu o Torneio Centro-Sul e, em 1969, ficou com o título do Torneio dos Campeões (Robertinho), ambos organizados pela então Confederação Brasileira de Desportos (CBD). Um movimento iniciado pelo Museu Esportivo de Maringá (MEM) pede, na CBF, o reconhecimento oficial das conquistas como títulos nacionais. 

Em decorrência do acúmulo de dívidas, o clube maringaense foi desativado em 1971. Ao longo da década, o Grêmio disputou duas vezes a Série A do Campeonato Brasileiro e 10 vezes a elite do Paranaense.

WD ampliado e lotado

A mobilização para a partida foi grandiosa de todas as partes. Os organizadores do evento ofereceram diversas promoções à torcida, sorteando duas viagens a Londres para assistir à Copa do Mundo de 1966 para aqueles que comprassem ingresso. Também foram sorteados 20 fuscas, em um bingo que vendeu 33 mil cartelas.

O resultado foram 20 mil torcedores lotando o Estádio Willie Davids, com renda registrada em 63 milhões de cruzeiros. De acordo com A Tribuna do Paraná em publicação à época, “houve venda antecipada de entradas e calcula-se que a renda total tenha chegado à casa dos 100 milhões de cruzeiros”.

Antes do jogo, durante uma semana, o WD passou por obras para que fossem construídos novos lances de arquibancadas, aumentando a capacidade de 17 para 22 mil pessoas.

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Estádio Regional Willie Davids na década de 1960 | Foto: Reprodução

O jogo (por História do Futebol)

A partida teve emoção do início ao fim. Aos 13 minutos, Luiz Roberto abriu o placar para os donos da casa, aproveitando a rebatida do goleiro Lev Yashin. Sete minutos depois, O Grêmio ampliou com Edgar, após tabelar com Célio. Mesmo com o forte calor e o estado do gramado ruim, os soviéticos não deixaram barato, conseguiram equilibrar as ações e obtiveram dois gols por intermédio de Shesternyov e Banishevskiy, aos 27 e 44 minutos, respectivamente, no primeiro tempo.

Na etapa final, com a torcida vibrando perto dos seus jogadores e também pelas falhas do campo, desviando quase sempre os lançamentos em profundidade, a CCCP acabou sofrendo o terceiro gol.

Aos 13 minutos, Célio soltou a bomba. O “Aranha Negra” deu rebote e Edgar tocou para o fundo das redes.

Ficha técnica

  • Grêmio Esportivo Maringá 3×2 União Soviética
  • 13 de fevereiro de 1966
  • Estádio Willie Davids, Maringá (PR) – Público: 20 mil; Renda: Cr$ 63 milhões
  • Árbitro: Antônio Viug (FCF – Federação Carioca de Futebol)
  • Gols: Luiz Roberto, aos 13 minutos (GEM); Edgar, aos 20 minutos (GEM); Shesternyov, aos 27 minutos (CCCP); Banishevskiy aos 44 minutos (CCCP), no 1º Tempo. Edgar, aos 13 minutos (GEM), no 2º Tempo
  • GEM: Maurício Gonçalves; Oliveira, Édson Faria, Roderley e Pinduca (Vitão); Haroldo Jarra (capitão) e Zuring; Luiz Roberto (Danúbio), Edgar, Célio (Ademir) e Valtinho. Técnico: Nestor Alves
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Foto: Acervo MEM
  • CCCP: Lev Yashin; Malafeev (Danilov), Shesternyov, Afonin e Guetmanov; Voronin  (capitão) e Sabo; Slava Metreveli, Ivanov (Prokoniov), Banishevskiy (Kopaiev) e Meshki (Vanist). Técnico: Nikolay Morozov
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Foto: Acervo MEM

‘Grêmio honrou o futebol bicampeão do mundo’

A vitória maringaense teve grande repercussão e foi alçada a feito histórico do futebol brasileiro. A façanha do Grêmio Esportivo Maringá rendeu até mesmo um telegrama do então governador do Paraná Paulo Pimentel:

“Peço, amigo Navarro (Mansur, presidente do Grêmio), que cumprimente os atletas do Grêmio, leve meu abraço pessoal pela vitória magnífica do próprio futebol brasileiro nas terras araucarianas. Desejo, ainda, que sintam nesta manifestação, o calor do interesse com que acompanhei o impressionante feito esportivo internacional, conquistado pelos rapazes do Grêmio.”

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Foto: Acervo MEM

Os jornais de maior destaque da época rasgaram elogios à atuação do time. O Diário da Tarde (PR) destacou: “A vitória do Grêmio Maringá, frente a Rússia, foi a maior vitória conquistada até hoje, por um clube do Paraná”. A Tribuna deu de manchete: “Grêmio honrou o futebol bicampeão do mundo”.

Os personagens

Se os soviéticos tinham Yashin e Metreveli, o GEM tinha o zagueiro Roderley Geraldo de Oliveira, que comandava a defesa e permaneceu na cidade após encerrar a carreira. Atualmente com 87 anos de idade, ele recorda que os soviéticos tinham uma estrutura de fazer inveja.

— A impressão que se tinha é que estávamos jogando contra 15, 20 jogadores, tamanho o condicionamento físico da seleção da Rússia, um time completamente qualificado. No intervalo, por exemplo, eles beberam refrigerante e comeram pão com presunto, e a gente só tinha uma aguinha pra beber — contou em entrevista ao GMC Online.

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Roderley foi homenageado com o título de Cidadão Benemérito de Maringá, em 2011 | Foto: Reprodução/Maringá Histórica

O preparo físico dos europeus foi o maior diferencial na partida, aliado ao desconhecimento mútuo dos adversários. Apesar disso, Roderley destaca que a habilidade técnica brasileira se sobressaiu à força soviética naquele amistoso, propiciando os caminhos para a vitória.

— Hoje o Brasil foi buscar um conhecimento próximo no aspecto físico dos europeus, mas naquele tempo nós não sabíamos como eles jogavam. Eles corriam demais, eles tinham um preparo físico invejável. Só que eles vinham com a força física e nós com a técnica, e a técnica predominou, porque sem técnica não adianta ter o melhor preparo físico do mundo.

O ex-zagueiro recordou que nunca havia jogado contra um time internacional e, apesar da novidade, a experiência do elenco foi determinante para que o time jogasse com naturalidade. Roderley foi revelado pelo Nacional-SP e havia enfrentado por muitos anos os grandes times paulistas, como o Santos, de Pelé.

— Foi uma novidade, né? Eu já era muito mais experiente, então nós tínhamos uma certa personalidade, mas não com aquela expectativa de vencermos. E, surpreendentemente, nós jogamos muito bem, nós neutralizamos, fomos até superiores à seleção da Rússia. O nosso time era competitivo, era qualificado tecnicamente, com jogadores experientes, jogadores que passaram por clubes grandes, e assim foi a partida. Vencemos, convencemos, e naturalmente foi um dos registros mais importantes da história do futebol de Maringá.

Na sua avaliação pessoal, Roderley considera ter feito um bom jogo, visto que tinha muitas responsabilidades defensivas como o principal zagueiro do time em uma partida tensa.

— Eu tive um desgaste muito grande. Eu devo ter perdido uns quatro quilos nesse jogo, porque eu tinha que marcar, tinha que cobrir, tinha que estar atento. Eu coordenava o posicionamento da defesa, era o homem que comandava atrás. Então era muita tensão, muita expectativa de vencer. Nós entramos para vencer. Porque nós já tínhamos perdido para o Santos de 11 a 1, deixando o Santos jogar. Aí jogamos para valer e vencer. Com mérito, indiscutivelmente.

Se Roderley era um dos principais nomes do Grêmio, o goleiro soviético Lev Yashin era o principal jogador da posição no planeta. Apelidado de “Aranha Negra” devido ao uniforme todo preto que usava, Yashin é o único goleiro até hoje a ter conquistado a Bola de Ouro, em 1963, três anos antes do embate em Maringá. Ele também é frequentemente considerado o melhor goleiro de todos os tempos.

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Lev Yashin, goleiro do Dinamo Moscow, com a Bola de Ouro | Foto Reprodução

Em certo momento do jogo, o astro da CCCP chegou a discutir com Célio, do Grêmio, em um bom espanhol. 

— O Yashin se enrolou em uma disputa com o Célio, e o Célio xingou ele. O Yashin respondeu em espanhol, ele entendia português, e ele xingou o Célio, que saiu de perto — contou Roderley.

—  Foi um jogo viril até em certos pontos, mas sem nenhum acontecimento especial. A não ser no momento em que o Metreveli saiu pela direita e o Pinduca deu um jogo de corpo nele, ele foi lá na pista, era pedregulho. Aí ele virou e fez sinal para a torcida que o Pinduca era louco — disse o ex-zagueiro.

A vitória do Grêmio Esportivo Maringá sobre a Seleção da União Soviética, por 3 a 2, ficou marcada na história do futebol brasileiro. Há exatos 60 anos, um time colocou Maringá frente a uma potência mundial, e triunfou.

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