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As pazes com meu pai

Eu nunca imaginei que choraria ao ver meu sobrinho em quadra. No sábado passado (10) o Heitor fez sua estreia em uma competição de futsal. Aos 7 anos, diz o meu irmão que ele é uma promessa no esporte. Como o Rafael é o genitor da criança, a afirmação está viciada, tem mais emoção do que razão. E quem se importa? O pai serve para isso. Ou deveria servir.

O jogo foi em Cianorte, válido por uma competição estadual de futsal. Vestindo a camisa 11, Heitor não jogou bem. Começou no banco; quando entrou, ficou perdido – não conseguia relar na bola, não se mantinha à frente como fixo. Nitidamente, estava nervoso, e havia motivo, claro. Era a primeira vez que meu sobrinho disputava um campeonato. O misto de emoções era gigantesco: treinador gritando, publico assistindo, um jogo a sério. E a família dele ali, na arquibancada. Mais especificamente eu, meu pai, minha mãe, meu irmão, minha cunhada e minha sobrinha, a irmã dele.

O resultado ficou em 7×1 para o time do Heitor. Mesmo ele não tendo marcado, foi bonito ver a comemoração das crianças quando faziam gol. Elas corriam até a arquibancada, olhavam para os pais e repetiam os gestos de Cristiano Ronaldo. Os pais batiam palmas, gritavam, mandavam beijos, diziam, olha aí, é o meu filho. E eu, disfarçadamente, me derretia em lágrimas ao ver tudo isso.

Minha mãe, certa vez, numa das tantas conversas que a vida me permite ter com ela, me explicou a razão da existência dos netos. “Eles existem porque Deus dá uma segunda chance aos pais. Aquilo que a gente não fez com os filhos, a gente faz com os filhos dos filhos.” Mais sábia que isso, impossível.

Naquele sábado, enquanto o Heitor estava em quadra, foi possível ver o passado no presente, como se as duas dimensões ocorressem simultaneamente. Quando meu sobrinho entrou em quadra, minha família ficou eufórica. Meu pai, os cabelos brancos e o óculos pendurado no pescoço amarrado por um cordão, se levantou e gritou, vai, Heitor, arrebenta! Foi a primeira vez que ouvi isso dele.

Eu joguei futebol dos 7 aos 16 anos. Disputei vários campeonatos, ganhei alguns, perdi outros, recebi medalhas, troféus. Mas meu pai nunca esteve lá para assistir, para aplaudir, para gritar, vai, filho, arrebenta! Eu nunca pude comemorar um gol olhando para ele.

Das memórias tristes que ainda guardo, me lembro de quando, num jogo em Maringá, nosso time perdia de 1×0. Eu, no banco, fui chamado para entrar no segundo tempo. Corri muito em campo, disputei bolas, recebi faltas. Final de jogo: 2×1. Os gols da virada feitos por mim.

Nesse dia, os pais de boa parte dos meus colegas foram assistir à partida. Parabéns, meu filho, uns diziam. Jogou muito, piá, outros falavam. Alguns vieram até e mim e me cumprimentaram, me desejando um futuro promissor no futebol. Do meu pai eu não ouvi nada. Ele não estava lá.

Foram anos de terapia para entender por que a falta dele nos meus jogos me machucava tanto, para entender por que ele não se importava. Por me lembrar de quando ele dizia que não iria assistir a jogo nenhum, que não tinha tempo, que ele indo ou não indo não mudaria nada, foram anos de mágoas guardadas.

Foi por isso que chorei no sábado, ao vê-lo torcer pelo neto, ao compreender o tamanho da sabedoria da minha mãe.

Ao final do jogo, meu pai abraçou o Heitor e deu parabéns a ele. Eu, de longe, observava cena. Tentando conter as lágrimas, de alguma forma me vi nos braços dele – hoje já não tão fortes como antigamente. O meu passado estava ali, naquele presente, como se fosse eu o garoto na camisa 11.

Talvez meu pai nunca saiba, mas fizemos as pazes naquele dia.

Sobre o autor

Victor Simião é jornalista. Repórter da CBN Maringá, acompanha a cultura e a política da cidade. Ganhador de dois prêmios jornalísticos, já escreveu para diversos veiculos, principalmente sobre leitura e literatura. O e-mail dele é [email protected]

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