55 pessoas já decidiram doar o corpo à UEM; universidade também recebe membros amputados para estudo

Na Universidade Estadual de Maringá (UEM), a doação voluntária de corpos para estudos científicos é essencial para a formação de profissionais da saúde. Dados atualizados do Departamento de Ciências Morfológicas mostram que atualmente, 55 pessoas já registraram a intenção de doar o corpo para a universidade quando falecerem – três delas formalizaram a decisão em 2026. Nos últimos anos, a instituição também recebeu novas doações efetivadas: quatro corpos de doadores voluntários chegaram à UEM entre 2024 e 2025, enquanto outros seis haviam sido recebidos anteriormente por meio de doações voluntárias ou encaminhamentos do conselho estadual responsável pela distribuição de cadáveres para instituições de ensino.
Como funciona a doação
A doação pode ser feita de duas maneiras. A mais comum ocorre quando a pessoa registra em cartório a intenção de destinar o próprio corpo à universidade para fins de estudo. Ainda assim, mesmo sem o documento formalizado, a família pode autorizar a doação após a morte, desde que saiba do desejo do falecido. “Quando ocorre o óbito, a família pode entrar em contato com a universidade e nós iniciamos os procedimentos para receber o corpo. Isso pode acontecer após o velório ou diretamente do hospital”, explica a professora Dra. Sônia Trannin de Mello, chefe do Departamento de Ciências Morfológicas da UEM, que diz que esses corpos são fundamentais para o ensino. “A medicina precisa dissecar pelo menos dois cadáveres por ano. Depois disso, as peças anatômicas são utilizadas por vários cursos da área da saúde, como odontologia, enfermagem, biomedicina, farmácia, psicologia e educação física”.
Apesar do avanço de tecnologias e softwares que simulam o corpo humano, a experiência prática ainda é considerada insubstituível no ensino da anatomia. O contato com o corpo real permite que os estudantes compreendam melhor as estruturas do organismo, as variações anatômicas entre as pessoas e também desenvolvam uma dimensão humana da profissão. “Esse corpo foi uma pessoa que teve a generosidade de ajudar na formação de novos profissionais”, destaca a professora.
E cada pessoa que decide por doar seu corpo tem uma história única, que merece ser honrada. Um dos casos que mais marcou a docente foi a de uma artista que morava em São Paulo e sempre dizia a amigos do teatro que gostaria de doar o corpo para a ciência. Quando ela faleceu, sem familiares próximos, os colegas lembraram do desejo e entraram em contato com universidades para cumprir sua vontade.
Após saberem que a UEM poderia receber a doação, os amigos foram ao cartório e formalizaram o documento. Em um gesto de carinho, eles também prepararam uma playlist com as músicas favoritas da artista. Durante o transporte do corpo até Maringá, a funerária tocou as músicas escolhidas pelos amigos — e o mesmo aconteceu quando o corpo chegou ao laboratório da universidade durante a preparação para poder ser utilizado nas aulas. A história emocionou professores e estudantes e se tornou um exemplo do impacto humano e simbólico que a doação pode ter.
Uma das 55 pessoas ainda vivas que decidiram doar seus corpos para a Universidade Estadual de Maringá é Aparecido Rúbio de Araújo, técnico em enfermagem e morador de Paiçandu. A escolha foi motivada pelo desejo de contribuir para a formação de novos médicos e profissionais da saúde, ajudando estudantes a compreender melhor o corpo humano durante as aulas de anatomia.
É possível doar membro amputados
Além das doações de corpos inteiros, a universidade também recebe membros amputados, que podem ser utilizados em estudos anatômicos. A possibilidade ainda é pouco conhecida pela população, mas pode ajudar famílias que enfrentam dificuldades para custear o sepultamento desses membros após cirurgias. “A família normalmente precisa arcar com os custos do sepultamento do membro. A doação para a universidade pode ser uma alternativa, já que esse material também é utilizado em estudos anatômicos”, detalha a professora.
Fila estadual distribui corpos entre universidades
No Paraná, há ainda a distribuição de corpos não reclamados, que passa pelo Conselho Estadual de Distribuição de Cadáveres. São corpos de pessoas não identificadas, que podem ser encaminhados às universidades conforme a demanda de cursos e número de estudantes.

Com o crescimento dos cursos da área da saúde e o aumento de alunos, a necessidade de doações permanece constante. Para os professores da UEM, cada doador representa muito mais do que material de estudo: é um ato de altruísmo que contribui diretamente para a formação de médicos e outros profissionais que, no futuro, cuidarão de milhares de pessoas.
As informações para ser um doador estão disponíveis no site do departamento, onde também há orientações sobre todo o processo.
