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03 de abril de 2026

A espera por um filho: vinte anos para ser chamado de ‘pai’


Por Brenda Caramaschi Publicado 10/08/2025 às 08h59
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Marcos Roberto Andreussi sempre teve o sonho de ser pai, mas demorou 20 anos para conseguir realizá-lo. / Foto: arquivo pessoal

Marcos Roberto Andreussi, 54, sempre teve o sonho de ser pai. Aos 23 anos, em 1994, ele se casou com Rosilene Brenzan. O projeto do casal, como o de muitos, era estruturar a vida a dois e esperar algum tempo para planejar a vinda dos filhos. Porém, três anos depois, Rosilene descobriu um problema genético que, caso viesse a gerar filhos, aumentaria muito a possibilidade de anomalias para a criança. “Isso trouxe para a gente medo. A gente começou a pensar se valeria a pena, se nós tentaríamos ou não,  e aí esse sonho inicial de ter um filho, a partir de 97, ficou mais difícil. A gente ficou apreensivo e o tempo foi passando,  e a gente acabou arquivando esse sonho”, relembra. 

Mas o desejo da paternidade nunca deixou por completo o coração de Andreussi. O técnico administrativo teve um encontro inesperado em uma festa de final de ano que fez a chama arder novamente no coração dele e no da esposa. “Em 2010, um amigo que trabalha junto comigo e também não tinha filho, que era casado há muito tempo, apareceu com um bebezinho novo. Mas a mulher dele não podia engravidar. A gente foi conversar com eles,  e eles falaram: ‘nós adotamos’. A criança foi crescendo, eu fui acompanhando e esse meu amigo começou a falar muito da ideia de ser pai, e aquilo acabou reacendendo o sonho da possibilidade. Eu comecei a conversar com a minha esposa também na época e a gente começou a pensar como seria”, diz.

A decisão de se tornar pai e a chegada do filho

Em 2014, depois de 20 anos de casamento e quase 17 sonhando em ser pais, Marcos e a esposa decidiram fazer o curso de preparação psicossocial e jurídica para adoção, um requisito obrigatório para pretendentes à adoção. “Começamos a orar, colocamos nas mãos de Deus e falamos ‘se Deus tiver esse propósito para nós, com certeza, Ele vai abrir a porta. Muitas pessoas colocavam medo na gente dizendo ‘como é que vai ser essa criança? Não sabe de onde que veio’, mas nós colocamos a nossa fé em Deus e falamos ‘Tu temos o melhor para nós. Se o Senhor tiver esse projeto da paternidade para mim, vai acontecer’”. O casal se apegou na história bíblica de Ana, mãe do profeta Samuel, que era estéril e clamou por um filho. 

Mais quatro anos se passaram até que, em junho de 2018, eles receberam uma ligação do fórum dizendo que havia uma criança à espera de adoção e perguntando se eles gostariam de conhecê-la. “Então nós fomos lá para conhecer, vimos as fotos, e foi interessante que disseram ‘olha, vocês são a sétima família que nós contactamos’. Eu falei ‘como assim?’, porque era um bebê de dois meses e todo mundo quer adotar bebê. É tão difícil adotar uma criança pequena. A gente só olhou um para o outro, e falou ‘só pode ser de Deus mesmo,  porque 6 famílias abriram mão e nós somos a sétima família, a contemplada’”, relembra. 

Marcos e Rosilene não tinham escolhido nome, mas a psicóloga que os acompanhava ajudou na decisão “Ela disse: ‘tem um nome que não me sai da cabeça’. A gente falou ‘mas que nome que é?’, e era Samuel. Se a gente falou que a nossa oração era a oração de Ana,  então o nosso Samuel está chegando. Então a gente ficou muito feliz e decidiu:  ‘vai ser Samuel mesmo’”, conta o pai, que ainda se emociona ao relembrar a cena. 

Depois de 20 anos de espera, o tão sonhado filho de Marcos estava nos braços e o casal estava maravilhado. “É como se o Samuel sempre tivesse sido nosso”, diz o pai. Diferente de uma gestação, não houve tempo para preparar quarto ou enxoval antes da “chegada da cegonha”. Mas a família toda e os amigos do casal se mobilizaram para providenciar tudo e acolher o bebê tão esperado. “Ele pode não ser do nosso sangue, mas ele é do sangue de Deus, foi vindo de Deus, e tudo que Deus faz é muito melhor. O Samuel veio para fazer a diferença na nossa vida. Não importou que a gente ficou  vinte anos sem ter um filho. Quando ele chegou, ele preencheu tudo aquilo que a gente sempre pensou, que a gente sempre almejou”, celebra Marcos.

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“É como se o Samuel sempre tivesse sido nosso”, diz o pai, que esperou 20 anos para ter o menino nos braços. / Foto: arquivo pessoal

Contudo, três anos depois, a vida da família, que esperou tanto para ficar completa, teve uma reviravolta. Em 2021, Rosilene descobriu um nódulo cancerígeno no seio e teve complicações durante o tratamento. Em fevereiro de 2022, ela morreu. 

“As perspectivas do tratamento eram boas, de se recuperar,  de ter uma vida normal, mas, de repente, essa complicação mudou tudo e caiu como uma bomba na minha cabeça. Quando eu olhei para aquele médico, quando ele me deu a notícia, eu falei: ‘o que eu vou falar para o meu filho?’. Como que eu vou criar essa criança sozinha agora? Quantas dúvidas vieram na minha cabeça naquele momento. Estava tudo certo agora, tudo aquilo que eu pedi para Deus, tudo aquilo que eu sonhei. Uma esposa, um filho,  uma estabilidade na vida, um momento de maior alegria que a gente estava tendo, vencendo aquele período de pandemia, ali todo mundo junto, ficamos dois anos praticamente dentro de casa, vivenciando esse momento com o Samuel e assim, de repente, caiu tudo por terra. O medo que eu tinha de cuidar do Samuel sozinho, foi um impulso, foi uma mola propulsora que me fez suportar a dor, vencer o luto, que não me deixou entrar em depressão, porque tinha momentos que eu achava que eu enlouqueceria.  Durante o período do luto, da elaboração do luto, foi um ano praticamente que o Samuel era a única alegria que eu tinha . Ele trazia alegria, me trazia paz.  E quando o Samuel dormia, eu quase achava que eu enlouqueceria”, desabafa Marcos Andreussi.

Mas o menino perguntava pela mãe e custou a entender que ela não voltaria mais. O pai notou que algo havia mudado quando Samuel fez um pedido.  “Ele falou assim: ‘se a mamãe não volta mais, então eu quero uma mãe nova’”, recorda Marcos. O pai disse ao filho que esse pedido deveria ser feito em oração e, todas as noites, quando oravam juntos na hora de dormir, Samuel repetia o pedido: “envia uma mamãe nova”.

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“Deus, envia uma mamãe nova”, era a oração que Samuel fazia junto ao pai. Mais de um ano depois, a prece foi atendida, na igreja em que a família frequenta. / Foto: arquico pessoal

A prece foi repetida por mais de um ano até que Marcos conheceu Maria Bassouto, que passou a frequentar a igreja onde ele ia há anos. Ela também tinha uma filha mais nova e, os dois começaram a sair junto com as crianças. Seis meses depois, eles se casaram. “Com uma semana o Samuel já estava chamando ela de mãe e a irmã de ‘tata’. Ela tem uma outra filha também, mais velha, casada, então o Samuel ganhou duas irmãs. A nossa família, que era só eu e ele, hoje é de cinco pessoas. Às vezes, a gente não entende o momento ou o ciclo da nossa vida, mas quando Deus fala que vai fazer, a gente tem que aquietar, e foi o que eu fiz. Os filhos são aqueles que fazem a gente não desistir, não desanimar.  Então hoje,  graças a Deus, a gente tá vivendo um tempo novo. Hoje eu vejo que a casa está cheia. Deus realizou o meu sonho”, finaliza o pai.

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Marcos, que esperou 20 anos para ser pai, agora tem também duas enteadas: “a casa está cheia”/ Foto: arquivo pessoal

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