Mistério das janelas tortas de prédio em Maringá é revelado pelo arquiteto


Por Felippe Gabriel

O Edifício Guinza, no Centro de Maringá, é amplamente conhecido pelas suas janelas tortas. Localizado na rua Piratininga, o prédio se transformou em ponto turístico pela sua peculiaridade. O que muitos não sabem é que as janelas, na verdade, não foram projetadas como tal. 

Prédio famoso: ‘Janelas’ tortas do Edifício Guinza em Maringá não foram projetadas como tal | Foto: Felippe Gabriel/GMC Online

Entregue em 2008, o edifício conta com 48 quitinetes de cerca de 25 metros quadrados cada, distribuídas em seis andares, e foi projetado pelo arquiteto e urbanista Roberto Estevam. Os apartamentos são compostos por sala e cozinha conjugadas, um quarto, banheiro e uma lavanderia que abriga as inusitadas “janelas”.

Segundo Estevam, no entanto, a lavanderia foi projetada como uma sacada, com pontos hidráulicos para tanque e máquina de lavar roupa. O peitoril da sacada seria um vão quadrado, que foi inclinado em algumas unidades. 

— O proprietário pediu uma coisa muito econômica, era uma obra bem enxuta. Na época ainda não tinha essa questão de hoje, que alguns prédios têm, que colocam uma lavanderia geral para todo mundo, então, tinha esse conceito ainda de ter uma cozinha e ter um lugar para ter um tanque e uma lavanderia. A gente optou por jogar esse ponto do tanque na sacada, onde acabava o quarto — revelou o arquiteto Roberto Estevam ao GMC Online

Apartamentos contém uma sacada com pontos hidráulicos | Foto: Montagem/GMC Online

Por que algumas ‘janelas’ são inclinadas?

Do total de vãos, 16 foram projetados com inclinação. De acordo com Estevam, os detalhes foram criados para tirar a “monotonia” do prédio. Ele percebeu na finalização do projeto que a fachada do edifício era muito simples, um “caixote” cheio de aberturas com muitas repetições, e então decidiu pela inclinação dos peitoris como um elemento estético que se destacasse.

— Quando a gente montou a fachada do prédio, ficou uma coisa muito monótona, não tinha graça nenhuma. Foi uma brincadeira que a gente fez de girar algumas “janelas”, não todas, para não ter uma repetição. E cada uma tem uma proteção, uma pequena marquise em concreto, que protege da chuva também. Teoricamente não poderia ter janela, era só um peitoril, e algumas pessoas se apropriaram desse espaço. Não colocaram tanque, estenderam o apartamento e colocaram uma janela, mesmo que ela ficasse torta — explicou.

O arquiteto destacou que todas as especificações de segurança previstas na legislação foram respeitadas e aprovadas na Prefeitura, inclusive com a autorização do proprietário que encomendou a obra. De fato, a inclinação dos vãos seria simplesmente um componente estético, como uma “brincadeira” da liberdade do artista.

Com as “janelas” tortas, a instalação de vidros e cortinas se tornou um desafio e alguns moradores precisaram adaptar o espaço com estruturas metálicas. Ao GMC Online, alguns residentes relataram que as janelas fecham sozinhas por conta da inclinação e que muitas vezes utilizam cabos de vassoura para segurá-las.  

Além disso, alguns moradores só perceberam a peculiaridade do imóvel quando entraram no apartamento pela primeira vez, mas se acostumaram com o tempo.

‘Fiquei chateado’

De acordo com o projeto original, os vãos inclinados do Edifício Guinza seriam evidenciados com a cor laranja. O “prédio de janelas tortas” de Maringá foi entregue pintado com a cor correta, mas foi alterado anos mais tarde. Atualmente, o condomínio tem cores neutras e foi todo pintado de cinza.

Projeto original do Edifício Guinza tinham detalhes em laranja | Foto: Estevam & Cia

A alteração do projeto original gerou chateação em Roberto Estevam, que diz não ter sido consultado antes da mudança.

— Eu só fiquei muito chateado que a gente não foi consultado. Pintaram o prédio inteiro de cinza, perdeu um pouco da graça. No pós-ocupação, não houve respeito ao profissional. Somente jogaram uma tinta nessa nova onda do monocromático. […] Para sair do trivial, às vezes você brinca um pouquinho, brinca com a cor. Se não dá para disfarçar, então põe em evidência.

A maior inspiração de Estevam para a criação dos elementos diferenciados do Edifício Guinza foi o Sesc Pompeia, em São Paulo, projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi. A obra é uma construção em concreto, com janelas em formato de amebas, juntas a um gradeado de madeira. Em seu projeto, Lina evidenciou os detalhes com a cor vermelha.

— Essa era a ideia também, a própria brincadeira que a Lina fez, algumas pinturas em vermelho. No caso eu usei laranja, criei aquela ameba também, que na verdade seria só uma sacada com um mirante. Na época o Novo Centro não tinha nada, tinha poucos prédios, foi para criar também um diferencial. Senão ficaria um monolito branco e algumas aberturas. Eu não acho bonito. A gente queria quebrar um pouquinho dessa monotonia da fachada — explicou Roberto Estevam. 

1/2 Sesc Pompeia, da arquiteta Lina Bo Bardi, foi projetado como janelas em formato de ameba | Foto: Pedro Kok
2/2 Janelas do Sesc Pompeia têm gradientes de madeira vermelhos | Foto: Beatriz Marques
Construtora Estevam & Cia

A construtora de Roberto Estevam, a Estevam & Cia, também é a responsável pelo Empire University, edifício localizado na Avenida Colombo, próximo à Universidade Estadual de Maringá (UEM), que está em fase final de construção. 

Curiosamente, o projeto possui características modernas semelhantes ao do Edifício Guinza, 18 anos após a conclusão do primeiro prédio. O Empire University foi projetado com vãos visíveis nas áreas técnicas dos apartamentos e, alguns deles, serão evidenciados com a cor laranja, assim como as “janelas tortas” do Guinza.

Empire University fica localizado na Avenida Colombo | Foto: Estevam & Cia
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