Dólar cai com menor risco geopolítico e inflação comportada nos EUA
O dólar exibiu queda firme nesta quinta-feira, 28, alinhado ao comportamento da moeda norte-americana no exterior, mas permaneceu acima da linha de R$ 5,03. A redução de prêmios de risco geopolítico, com sinais de avanço nas negociações entre Irã e Estados Unidos, e a leitura comportada da inflação nos EUA abriram espaço para a valorização das divisas emergentes.
O real apresentou desempenho superior ao dos seus pares latino-americanos, recuperando parte do terreno perdido nas últimas semanas com o aumento dos ruídos políticos domésticos, na esteira do “Flávio Day 2.0”.
A moeda brasileira pode ter se beneficiado também da conjugação de menor aversão ao risco com manutenção dos preços do petróleo em níveis elevados, o que favorece os termos de troca do Brasil.
Afora uma alta pontual na primeira meia hora de negócios, quando registrou máxima de R$ 5,0753, o dólar à vista operou em terreno negativo no restante do dia. Com mínima de R$ 5,0238, à tarde, encerrou o pregão em baixa de 0,57%, a R$ 5,0318. A moeda norte-americana avança 1,60% ante o real em maio, após queda de 4,36% em abril. No ano, as perdas são de 8,33%.
O superintendente de câmbio do Banco Rendimento, Jacques Zylbergeld, ressalta que a dinâmica do mercado de câmbio segue atrelada à “guerra diplomática” entre EUA e Irã, que leva a episódios pontuais de aumento e diminuição do apetite ao risco. “Hoje tivemos uma reviravolta. Começamos o dia com notícias de ataques, mas depois veio a informação de um acordo para prorrogar o cessar-fogo, o que trouxe alívio para o mercado”, afirma Zylbergeld.
Ele observa que a taxa de câmbio mudou de nível após a revelação do caso “Dark Horse”, que abalou parcialmente a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Palácio do Planalto, mas ressalta que o destino do real parece mais ligado, no curto prazo, ao comportamento da moeda norte-americana no exterior.
“O Banco Central americano está com uma dor de cabeça com os preços de energia. Os dados de inflação hoje não trouxeram grande alívio. O mercado segue projetando mais riscos de alta de juros nos Estados Unidos. Isso deixa o dólar mais forte no exterior e impede a taxa de câmbio de voltar para a casa de R$ 4,90”, afirma Zylbergeld.
Os preços do petróleo apresentaram ligeira alta em meio ao vaivém de notícias sobre as tratativas de paz no Oriente Médio. O contrato do Brent para agosto, referência de preços para a Petrobras, fechou em alta de 0,49%, a US$ 92,70 o barril. Após relatos de ataques mútuos entre Estados Unidos e Irã, reportagem da Axios informou que as partes chegaram a um acordo preliminar para um memorando de entendimento de 60 dias que prevê a extensão do cessar-fogo, o início de negociações sobre o programa nuclear iraniano e a reabertura “irrestrita do Estreito de Ormuz”.
Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY recuava por volta de 0,20% no fim da tarde, ao redor dos 99,00 pontos, após mínima aos 98,945 pontos. O Dollar Index avança 1,60% no mês. As taxas dos Treasuries exibiram queda discreta, mais concentrada nos juros longos.
Indicador mais aguardado da semana, o índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) nos Estados Unidos e seu núcleo em abril – métrica de inflação preferida pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) – vieram ligeiramente abaixo das expectativas, mas seguem rodando bem na casa de 3% na comparação anual, bem acima da meta de inflação, de 2%.
“A medida de inflação preferida do Federal Reserve não foi tão alta quanto se temia, mas isso fará pouco para dissuadir os membros do Fed de abandonar uma postura cada vez mais conservadora”, afirma, em nota a clientes, o economista-chefe internacional do ING, James Knightley, acrescentando que o BC americano não vai suavizar o tom até que tenha “confiança de que a escalada dos preços de energia tenha ficado para trás, o que depende de um acordo para reabrir o Estreito de Ormuz”.
Ferramenta de monitoramento do CME Group mostra o mercado, grosso modo, dividido entre dezembro deste ano e janeiro de 2027 como data mais provável para um aumento de juros nos EUA. Pela manhã, o presidente do Fed de Nova York, John Willians, afirmou que a política monetária está “um pouco restritiva” e bem posicionada para lidar com as pressões inflacionárias provocadas pelo choque nos preços de energia. À tarde, o presidente do Fed de St. Louis, Alberto Musalem, disse que a possibilidade de uma alta de juros nos EUA “é maior do que zero”.
