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Eu não tenho nada a ver com isso, vó

“The Wasteland”, talvez o mais conhecido poema de T.S. Elliot, começa com um dos versos mais memoráveis da literatura em língua inglesa: “Abril é o mês mais cruel”. O poeta tem lá os motivos dele para dizer isso. Eu tenho os meus: não bastasse o coronavírus, há lives de pessoas desinteressantes que se acham importantes, maringaenses que insistem em sair sem máscara, e as mortes de Rubem Fonseca, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Morais Moreira e Lindalva Correia de Barros. Talvez a menos conhecida de todas as mortes listadas tenha a sido da última, embora seja a mais que tenha me tocado, doído, marcado. Lindalva era minha vó, mãe de minha mãe. 

Em nossa família, vale o registro, netos e netas não dizem “avô” ou “avó”; os termos são “vô” e “vó”. Aliás, barbados ou não, casados ou não, cristãos ou não, temos um hábito dos antigos. Pedimos “benção” aos mais velhos. Não falamos “A benção, mãe”. Cortamos, novamente, o “A”. Não sei se temos algum problema fonético, mas isso explica por que um dos sucessos de Chico Buarque nunca fez burburinho em nossa linhagem. Não faria sentido cantar “Manhã vai ser outro dia” porque, se é manhã, não é outro dia. É o mesmo dia. É hoje. Mas estou me desviando do foco.

Aos 79 nos, minha vó morreu em decorrência de uma pneumonia, reflexos do mal de Parkinson e outros problemas. Foi na noite do dia 20 de abril. Fui uma das últimas pessoas a vê-la antes de morrer e, junto a minha mãe, o primeiro a observar o corpo sem sopro de vida. Doeu, faz parte. Embora ela tenha morrido, ficam as boas recordações e todos os outros clichês que, acreditem, são verdadeiros.

Espero não chocar ninguém, mas não acredito em uma série de coisas que parecem estar pacificadas, como a Globo ser a culpada de tudo que acontece no Brasil; que há vida após a morte; também não tenho crença de que ela esteja em um lugar melhor – se bem que, estando em qualquer lugar que não o Brasil de 2020, já é, com toda a certeza, um lugar melhor. O caixão fechou, acabou.

Logo, o que escrevo aqui é para os meus dois ou três leitores de sempre. Minha vó não verá, não lerá esta crônica. Aliás, nem se estivesse viva seria necessário. São memórias que vivemos e escrevemos juntos. São pequenas histórias, causos, que, agora, estão tão frescos em minha cabeça como quando aconteceram.

Nascido em 1994, sou de uma época em que a casa da vó era o lugar dos almoços de domingo. A macarronada, o programa Silvio Santos, o tio bêbado querendo abraçar e beijar e pedir desculpas para todo mundo. A casa da vó era o palco de tudo isso e muito mais. Era, também, o meu tribunal. Explico.

Nunca fui santo, mas também não era o culpado de tudo. Entretanto, absolutamente tudo que acontecia na casa da vó aos domingos era culpa minha. Não importava se Rafael, Cleiton, Tiago, Thaisa, Gabriela e Gustavo – os outros primos – estivessem presentes. Sobrava sempre para mim. Jogaram uma bola e quebraram um vidro? “João Victor!!!!!!!!”, ela gritava. Subiram no pé de jaboticaba e quebraram um galho? “João Victor!!!!!!!”. Certa vez, num domingo, um vizinho morreu e me pediram para avisar minha vó.

– Vó, o seo Aristídes morreu. Mas eu juro: eu não tenho nada a ver com isso.

Ela não esboçou reação, o que me fez pensar que ela tinha lá as dúvidas dela quanto à responsabilidade da morte.

Certa vez ela me disse que, como eu estava ficando grande, não me daria mais presente. Eu devia ter uns 10, 11 anos de idade. Ainda assim, ao longo dos anos seguintes, ela sempre me dava algo no aniversário. “Só não conte para ninguém que eu te dei”, ela dizia. E eu me sentia especial. Até o dia em que, já não me lembro como, eu soube que todos os meus primos, também netos dela, recebiam presentes e ouviam a mesma sentença pedindo para que nada fosse comentado.

Das últimas vezes que conversamos bem, no final do ano passado, ela já estava sofrendo com as memórias. Confundia datas, esquecia o nome das pessoas. Eu disse a ela que isso era bom e ruim. Ruim, porque às vezes a gente queria se lembrar de algo e não funcionava. Bom, porque quando algum chato aparecia na casa dela era possível encerrar o encontro em menos de cinco minutos. A vó deu risada.

Foi também nesse encontro que perguntei a ela se ela se lembrava de quem era o Roberto Carlos. O cantor. De primeira, disse que não. Aí eu coloquei “Detalhes” para tocar. A vó, daí, começou a balançar a cabeça, fechou os olhos e disse que sim, se lembrava. “Um cabeludo, bonito, não é?”.

Sim, vó, um cabeludo bonito. Mas não mais bonito que a senhora e seu cabelo curto nunca pintado; não mais bonito que a senhora abraçando os filhos, netos e bisnetos; não mais bonito que os domingos em que a senhora fazia gelatina de abacaxi e deixava a gente beber todo refrigerante. Não mais bonito que você, Lindalva, que só agora eu percebo a razão do nome: de beleza estupenda, linda. De pele clara, alva.

Eu sei que a senhora não lerá esta tentativa de crônica, mas não posso me furtar a dizer, mesmo tantos anos depois: eu juro que não tive responsabilidade com a morte do seo Aristídes. Pode acreditar, viu?

Saudades.

 

Cronista do GMC Online, Victor Simião é repórter e colunista de literatura na CBN Maringá. Ele está no Twitter e Instagram. Fale com o autor: [email protected]

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