CasoEloá: relembre o sequestro que expôs erros da polícia e limites da cobertura jornalística
A tentativa de homicídio contra o tenente da Rota Ronickson Pimentel, irmão de Eloá Pimentel, assassinada em 2008, recolocou em evidência o caso do sequestro que ficou marcado como o mais longo da história de São Paulo.
O crime ocorreu em outubro de 2008, em Santo André quando Eloá foi mantida refém por mais de 100 horas dentro do apartamento onde morava. O sequestro mobilizou a polícia ao longo de cinco dias e foi acompanhado em tempo real pela imprensa, até o desfecho que terminou com a morte da adolescente.
Ao fim do julgamento, em 2012, Lindemberg foi condenado a 98 anos e 10 meses de prisão por 12 crimes, incluindo homicídio, tentativas de homicídio, cárcere privado e disparo de arma de fogo. Em 2013, a pena foi reduzida para 39 anos e 3 meses. Ele segue preso na penitenciária de Tremembé, no interior paulista. Relembre o caso.
Segunda-feira, 13 de outubro
O sequestro começou à tarde, quando Eloá estava com mais três amigos, Nayara Rodrigues da Silva, Iago Vilera e Victor Campos, estudando em seu apartamento, em um conjunto habitacional da periferia de Santo André. Nessa época, a adolescente e Lindemberg Alves já não namoravam mais, mas o rapaz, sete anos mais velho que ela, dizia não aceitar o término da relação.
Ele invadiu o apartamento de Eloá com dois revólveres e fez o grupo de refém. Horas depois, ao perceber a demora do filho em chegar em casa, o pai de um dos garotos bate na porte da casa de Eloá. Foi quando o sequestro foi revelado e denunciado à polícia.
No mesmo dia, já em meio às negociações com policiais do Gate, Lindemberg liberta os dois rapazes, mas mantém Eloá e sua melhor amiga, Nayara, dentro do apartamento.
Terça-feira, 14 de outubro
As negociações foram retomadas no dia seguinte. Em dois momentos, Lindemberg chega a disparar contra pessoas que acompanhavam o sequestron in loco. A polícia reagiu e cortou a luz do apartamento. O Gate combinou de só restabelecer a energia depois que ele libertasse uma das reféns. Momentos depois, Nayara foi liberada.
Quarta-feira, 15 de outubro
No 3º dia de sequestro, a produção da RedeTV consegue contato com Lindemberg, e a jornalista e apresentadora Sonia Abrão faz uma entrevista ao vivo, em rede aberta, com o sequestrador.
No diálogo, ela tenta convencê-lo a libertar a adolescente e juntos chegam a arquitetar uma possível rendição. O plano, segundo Lindemberg, era sair junto com Eloá. Ela portaria os dois revólveres sem munição, e ele, atrás dela, estenderia os braços para cima. “Mas não vou dar a data e nem a hora”, disse o rapaz à apresentadora.
Na época, a conduta de Sônia Abrão foi criticada pela imprensa e por especialistas em segurança. Mesmo assim, em declarações dadas anos após o sequestro, ela disse que não se arrepende do gesto, e que sua formação de jornalista foi importante na condução da conversa.
“Estava apresentando o programa quando o diretor me avisou que o Lindemberg estava na linha. Com minha experiência jornalística, conversei com ele. E falei com a Eloá também. No meio da conversa, ele cortou e desligou. Todo mundo me assistiu, a polícia, a imprensa, o público”, disse Sonia ao portal UOL em 2014.
Quinta-feira, 16 de outubro
Na manhã do 4º dia de sequestro, 16, Nayara volta ao prédio para ajudar a libertar Eloá. Mas acabou entrando no apartamento de novo e ficando, outra vez, em poder de Lindemberg. A polícia foi criticada por permitir que a garota participasse do processo de negociação de um sequestro pelo qual ela já tinha sido libertada.
Em depoimento, Nayara afirmou que Douglas, irmão de Eloá, foi orientado pelos PMs a subir até o primeiro piso do prédio, enquanto ela deveria ir ao segundo andar, sem se aproximar muito da porta do apartamento. No entanto, quando chegou perto do local – e sem a proteção de agentes de segurança -, a porta foi aberta e Lindemberg ameaçava Eloá com uma arma. Eloá, então, teria dado a mão à amiga, que voltou a ser mantida como refém.
Já Lindemberg afirmaria depois que Nayara voltou a pedido da amiga. “Foi a Eloá (quem pediu para a Nayara voltar). Ela falou, assim, que a amizade delas era grande”. A polícia, na época, se defendeu e disse que só havia autorizado a jovem a negociar a partir do primeiro piso do edifício.
Na tarde de quinta, o então vereador e superintendente de futebol do São Paulo, Marco Aurélio Cunha, se escalou para conversar com Lindemberg. O motivo? O sequestrador pendurou na janela do apartamento uma camisa do clube, indicando ser torcedor do time do Morumbi. Mas a iniciativa do dirigente também não funcionou.
Sexta-feira, 17 de outubro
No 5º e último dia de cárcere, as negociações avançam e Lindemberg chega a dizer que se renderia. Mas imagens feitas pela polícia na época mostram o jovem, do outro lado da linha do telefone, conversando com um tom de cansaço e dizendo não ter perspectivas para o próprio futuro. “Não quero mais a Eloá”, disse ele aos policiais.
No entanto, no fim da tarde, agentes do Gate invadem o apartamento sob alegação de ter ouvido tiros dentro do imóvel. Na hora de entrada, o sequestrador dispara e atinge Eloá, na cabeça e na virilha. Os tiros também acertaram o rosto de Nayara. O rapaz fazia ameaças de que mataria as duas reféns caso a polícia entrasse na casa.
As duas adolescentes foram atendidas e internadas em estado grave, enquanto Lindemberg era detido e levado à delegacia pelo Gate. Nayara sobreviveu aos ferimentos, mas Eloá teve a morte cerebral confirmada na noite do dia seguinte, sábado, 18, às 23h30. Mais de 12 mil pessoas acompanharam o velório da jovem, que foi sepultada e enterrada em Santo André, na terça-feira, 21, oito dias depois do início do sequestro.
