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25 de março de 2026

‘Epidemia de micropênis’ não existe; boato expõe crianças a riscos com hormônios


Por Agência Estado Publicado 25/03/2026 às 11h38
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A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Pediátrica (CIPE) publicaram um alerta na manhã desta quarta-feira, 25, sobre conteúdos desinformativos que sugerem uma suposta “epidemia de micropênis” em meninos e incentivam o uso de hormônios, como a testosterona, para “resolver” o quadro.

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Foto: Freepik

As entidades destacam que os vídeos assustam os pais ao afirmar que existe uma “janela de oportunidade” para o tratamento com esse hormônio e que, se ela não for aproveitada, o menino terá micropênis na vida adulta. Ocorre que o uso indiscriminado e sem indicação clara da substância pode gerar uma série de consequências negativas.

“O uso indiscriminado da testosterona de forma precoce pode fechar as cartilagens de crescimento, antecipar a puberdade e até mesmo causar problemas de fertilidade na vida adulta”, explica Roni de Carvalho Fernandes, presidente da SBU.

O uropediatra Marcos Gianetti Machado, do Hospital Sírio-Libanês, acrescenta que o uso dos hormônios pode causar um efeito enganoso. “Ao administrá-los antes da puberdade, pode ocorrer um aumento do tamanho peniano, o que gera satisfação nos pais e a impressão de que o tratamento foi eficaz. No entanto, esse crescimento representa apenas uma antecipação do que ocorreria naturalmente durante a puberdade, e não um ganho real adicional”, detalha.

“Ou seja, o uso hormonal precoce pode antecipar o crescimento, mas não aumenta o potencial final, além de expor a criança a riscos desnecessários”, ressalta Machado.

Em alguns casos, o uso do hormônio pode, de fato, ser indicado. Ainda assim, a recomendação deve vir somente após uma avaliação médica rigorosa.

Medição deve ser feita por profissionais

Os conteúdos também têm incentivado os responsáveis a medirem o pênis de crianças em casa. Fernandes informa, porém, que não isso não é simples: trata-se de um ato médico que deve ser realizado por profissionais, como pediatras, urologistas ou endocrinologistas.

Para começar, o procedimento não pode ser realizado em qualquer lugar. Afinal, ambientes frios podem afetar o estado do órgão e comprometer a avaliação. Além disso, a criança deve ser posicionada com calma, já que o medo de ser examinada pode provocar a contração do pênis e alterar o resultado. O instrumento de medição também precisa ser posicionado corretamente.

Há ainda certas condições capazes de confundir o diagnóstico em casa, gerando “falsos positivos” – sobretudo entre crianças com obesidade. É o caso, por exemplo, de implantação da pele na região genital (chamada de pênis embutido ou pênis palmeado). Nesses casos, a haste peniana pode parecer menor do que realmente é.

De acordo com reportagem da Agência Einstein, a confusão entre percepção e realidade foi confirmada por um levantamento da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) realizado no final de 2025 e apresentado durante o 40º Congresso Brasileiro de Urologia. A pesquisa avaliou como os pais de 99 meninos percebiam o tamanho do órgão sexual do filho durante atendimentos do mutirão Novembrinho Azul, em Florianópolis. Embora 48% dos participantes considerassem o tamanho dentro da normalidade, cerca de 24% acreditavam que estava abaixo da média.

Quando os médicos realizaram as medições padronizadas, porém, descobriram que os responsáveis subestimavam o comprimento peniano em cerca de 2,5 a 3 centímetros. Entre todas as crianças examinadas, nenhuma apresentava micropênis, revelando que muitos pais não conhecem as variações normais da anatomia infantil.

O que, de fato, caracteriza o micropênis?

De acordo com Machado, o micropênis é uma condição clínica rara definida cientificamente quando o tamanho do órgão está 2,5 desvios-padrão abaixo da média esperada para a idade.

O quadro deve ser identificado ainda na infância, no primeiro ou segundo ano de vida. “Isso é importante porque, nesse momento, ainda há possibilidade de avaliar causas e, quando indicado, realizar intervenções que possam ter efeito”, detalha.

Vale destacar que o quadro não é sinônimo de infertilidade. Só existe essa possibilidade, segundo Machado, se ele estiver associado a síndromes genéticas ou alterações cromossômicas.

Existe um tamanho ideal do órgão?

Não. Machado afirma que o tamanho peniano varia e depende de fatores hormonais e genéticos. O ambiente tem pouca influência. Há grande variação mesmo dentro de uma mesma população.

“Um ponto importante é que, no desenvolvimento normal da criança, entre os 4 e os 11 ou 12 anos praticamente não há crescimento peniano. Nesse período, o corpo pode crescer, mas o genital tende a permanecer praticamente inalterado”, detalha o uropediatra do Sírio-Libanês.

“O crescimento mais significativo ocorre na puberdade, quando há maior estímulo hormonal, levando ao desenvolvimento genital mais evidente”, continua.

Segundo Luiz Claudio Castro, endocrinologista pediatra e coordenador do departamento de endocrinologia pediátrica da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), o desenvolvimento do pênis e dos testículos ocorre em fases bem definidas ao longo da vida.

Ainda no período intrauterino, o pênis já apresenta crescimento, impulsionado pela ação dos hormônios testosterona e di-hidrotestosterona, fundamentais para a formação adequada da genitália masculina.

“Após o nascimento, existe um período importante chamado ‘minipuberdade’, que ocorre nos primeiros meses de vida, geralmente até cerca de 6 meses. Nessa fase, há um aumento temporário dos hormônios sexuais, o que contribui para o crescimento do pênis e dos testículos”, detalha Castro.

“Depois desse período, o crescimento do pênis continua, mas de forma mais lenta e gradual ao longo da infância. O aumento mais significativo ocorre apenas na puberdade, quando há uma nova elevação das concentrações de testosterona, que estimula o crescimento do órgão até que atinja seu tamanho final”, adiciona.

Por fim, Machado cita que “há uma preocupação crescente com a adultização das crianças, ou seja, a criação de expectativas relacionadas a tamanho e sexualidade ainda na infância. Em muitos casos, isso parte dos próprios pais.”

“É importante refletir se a exposição indiscriminada a conteúdos inadequados, como materiais pornográficos, não está contribuindo para essas expectativas irreais e para uma sexualização precoce, que é extremamente prejudicial”, finaliza.

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