Por que o calor de 40°C na Europa causa pânico e no Brasil não?

As intensas ondas de calor registradas em toda a Europa têm levantado alertas recentemente. Nesta semana, o Reino Unido, país acostumado com clima mais ameno, precisou enfrentar temperaturas próximas aos 40°C, o que causou transtornos a milhões de habitantes.
O tempo extremamente quente e seco em muitos países europeus também tem provocado incêndios em várias regiões. A agência meteorológica do Reino Unido, a Met Office, chegou a classificar a situação enfrentada pelo país como “sem precedentes”, referindo-se às máximas que vêm sendo registradas nos últimos dias.
As ondas de calor acendem um alerta sobre a atual situação climática do planeta, mas também levantam um questionamento nos brasileiros: por que o calor de 40°C é uma condição grave na Inglaterra e no Brasil é quase “normal”?
Maringá, por exemplo, é uma das cidades onde os termômetros já ultrapassaram os 40°C. O recorde foi alcançado em 2 de outubro de 2020, quando a temperatura na cidade chegou a 40,7ºC, às 14h, de acordo com informações do Sistema Meteorológico do Paraná (Simepar).
De acordo com o meteorologista Reinaldo Olmar Kneib, do Simepar, um dos principais aspectos que precisa ser levado em consideração é o fato de o clima na Europa ser mais ameno – e com mais dias frios – durante boa parte do ano. Enquanto isso, no Brasil, são poucos os períodos com temperaturas baixas.
“O Brasil é um país continental e grande parte está muito próxima do clima tropical ou subtropical. Ou seja, na maior parte do ano faz muito calor. Já a Europa, que está mais próxima ao Polo Norte, enfrenta mais ondas de ar frio. É um clima temperado, que tem mais presença de dias frios, com menos quantidade de horas de sol, e tudo isso favorece que tenham mais períodos de temperaturas baixas. Os europeus não estão acostumados com temperaturas bastante elevadas e, principalmente, persistentes, [já que] não é comum ter ondas de calor por várias semanas e também todos os anos, como vem acontecendo”, explica Kneib.
Ele destaca que nos países europeus as temperaturas médias são muito mais baixas se comparadas às brasileiras. Um exemplo é o recorde de 40°C atingido em Londres nesta semana, temperatura quase “normal” em algumas regiões do Brasil. “É uma região fria e também há os mares, que acabam influenciando e mantendo muita nebulosidade no continente. Isso também impede que o aquecimento seja tão pronunciado. Diferentemente do Brasil, onde a maior parte do país tem grande quantidade de luz solar em boa parte do ano, há um predomínio de mais massas de ar quente do que de ar frio”, acrescenta.
O meteorologista também considera os hábitos de vida da população como um fator importante para se entender por que o calor europeu afeta tão intensamente os habitantes. “A população na Europa é mais idosa do que no Brasil, proporcionalmente, e lá as famílias são menores, com poucos filhos. É muito comum os pais morarem sozinhos, as pessoas não se visitam tanto, e isso é um agravante. Às vezes elas começam a ter dificuldades [por causa do calor] e às vezes, infelizmente, elas vão a óbito [enquanto estão sozinhas]. Elas não estão acostumadas com o calor tão expressivo”, considera Kneib.
Calor recorde na Europa mostra que é preciso frear mudanças climáticas
Ondas de calor ocorrem por conta de alterações naturais dos padrões climáticos globais. Nos últimos dias, muitos lembraram da onda de calor de 1976 que assolou a Europa e, em especial, o Reino Unido. No entanto, o aumento da frequência, da duração e da intensidade desses eventos nas últimas décadas são compatíveis com o aquecimento global do planeta provocado pelas atividades humanas, dizem cientistas.
Desde o século 19, quando medições climáticas começaram a ser feitas, e a Revolução Industrial se alastrou pelo mundo, a temperatura média do planeta aumentou em 1,1º C por causa, principalmente, das emissões de dióxido de carbono e outros gases. São substâncias que se acumulam na atmosfera, impedindo a irradiação do calor. Assim, transformam o planeta em uma estufa.
Em meio à onda de calor extremo que se alastra pelo hemisfério norte, o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, lançou um alerta para representantes de mais de quarenta países reunidos na última segunda-feira para o Diálogo Climático de Petersberg, na Alemanha. “Nós temos uma escolha”, afirmou, pedindo mais ações contra o aquecimento global. “Ação coletiva ou suicídio coletivo. Está em nossas mãos.”
Ontem, o secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Petteri Taalas, seguiu a mesma linha de Guterres. “As ondas de calor vão ser cada vez mais frequentes e extremas; que a atual situação (da Europa) sirva de alerta para políticos do mundo inteiro.”
De acordo com a Agência Espacial Americana, a Nasa, o mês de junho foi o mais quente já registrado. E julho segue pelo mesmo caminho. Pela primeira vez desde o início das medições, o Reino Unido, acostumado a verões em que as máximas não ultrapassam os 25º C, registrou ontem 40,2º C, em meio a um alerta vermelho de temperaturas extremas emitido pelas autoridades locais.
Há nove dias, a Espanha enfrenta uma das piores ondas de calor da sua história, com temperaturas que variam de 39ºC a 45ºC.
Nesta terça-feira, um trem de passageiros que ia de Madri para a região da Galícia teve que parar diante de um grande foco de incêndio. O fogo se alastra por todo o sul da Europa. Mais de mil pessoas morreram apenas na Península Ibérica.
Já há previsões de que mesmo países mais ao norte, como Bélgica e Alemanha, também registrem temperaturas superiores aos 40ºC.
“O aumento médio da temperatura global é de 1,1ºC, o que parece pouco. Mas uma elevação equilibrada. Isso significa que, em alguns lugares vai esfriar e, em outros, vai esquentar muito. Para uns, a situação será difícil; para outros, impossível”, explicou o secretário executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini.
“O sexto relatório do IPCC divulgado no ano passado, por exemplo, mostra que, em média, o semiárido brasileiro registra dois eventos de seca extrema por década. Entretanto, dependendo do aumento médio das temperaturas, pode passar a registrar até cinco eventos desses por ano, o que inviabilizará a agricultura, porque não haverá tempo hábil para a recuperação do solo.”
Sem coincidência
A chance de a temperatura no Reino Unido chegar a 40ºC, por exemplo, é dez vezes mais provável agora do que antes da Revolução Industrial, quando a queima de combustível fóssil se tornou um padrão mundial.
A Europa é particularmente vulnerável. Os motivos são a proximidade com o Ártico (que perde sua cobertura de gelo com rapidez) e acorrente do Golfo, que eleva as temperaturas no continente.
“Ainda assim, o Reino Unido registrar a maior temperatura da sua história não é uma coincidência; outros países também estão registrando temperaturas totalmente anômalas, fora do padrão”, afirmou o coordenador-geral de operações e modelagem do Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o meteorologista Marcelo Seluchi. “E isso coincide com o que as pesquisas vinham antecipando, uma maior frequência de eventos extremos.”
“Embora haja um claro padrão de onda atmosférica, com regiões mais quentes e mais frias se alternando, essa grande área de calor extremo é uma claro indicador de que as emissões de gases-estufa pela atividade humana estão causando padrões climáticos extremos que impactam nossas vidas”, afirmou o chefe do escritório global de modelagem do Goddard Space Flight Center, da Nasa, Steven Pawson.
Outras regiões do hemisfério norte também estão registrando ondas de calor extremo e temperaturas recorde, segundo dados da Nasa. No último dia 13, na Tunísia, no Norte da África, a temperatura chegou a 48º C, batendo uma marca de quarenta anos.
No Irã, as temperaturas permaneceram altas em julho depois de um registro de 52ºC no fim de junho. Na China, o verão trouxe três ondas de calor muito forte. Segundo o Observatório de Xangai, que registra temperaturas desde 1873, a cidade alcançou 40,9ºC, a maior já marcada.
“Os extremos climáticos são uma consequência direta do aquecimento global”, diz o pesquisador José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). “Cada vez mais veremos ondas de calor extremo na Europa e nos Estados Unidos, com incêndios, e, possivelmente, veremos também invernos extremos, com grandes nevascas. Aqui no Brasil, já vivemos extremos também, com chuvas intensas e secas.”
A geopolítica mundial não é favorável às negociações climáticas internacionais que serão retomadas em Sharm el-Sheikh, no Egito, em dezembro, na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP, na sigla em inglês) 27, em dezembro deste ano.
A desaceleração econômica provocada pela pandemia de covid-19 que, inicialmente, fez reduzir mundialmente as emissões de CO2, deu lugar a um aumento generalizado na produção de combustível fóssil desde a eclosão da guerra na Ucrânia.
Embora haja uma tendência de médio e longo prazo na renovação da matriz energética, sobretudo na Europa (por energias renováveis ou nuclear), o fato é que a guerra provocou um aumento generalizado da produção de combustíveis fósseis. Até mesmo a China, que vinha num movimento significativo de redução da produção de carvão, retomou o uso diante do risco de escassez energética.
“A guerra tirou as mudanças climáticas do centro do debate político, trazendo a segurança energética para o foco, com Estados Unidos, Europa e China aumentando a produção de petróleo, gás natural e carvão desde março”, declarou o professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Eduardo Viola. “O lado bom dessa onda de calor é que ela traz de volta a sensação de urgência na luta contra o aquecimento global, que é inexorável.”
Contramão
O Brasil, por sua vez, aumentou consideravelmente o desmatamento (principal causa de suas emissões) em todos os seus biomas no ano passado, segundo os últimos números do MapBiomas. Relatório divulgado na última segunda-feira constatou um aumento de 20% na destruição de 2020 para 2021.
Por conta disso, o Brasil foi um dos únicos países do mundo a registrar um aumento de emissões de gases-estufa durante a retração econômica provocada pela pandemia.
“Ou seja, estamos completamente na contramão mundial”, afirmou o climatologista Carlos Nobre, um dos principais pesquisadores de mudanças climáticas no País. “As nossas emissões explodiram nos últimos anos, vivemos uma situação trágica. Para se ter uma ideia, em termos de emissões brutas, já alcançamos 10,5 toneladas por habitante por ano, um número bem similar ao da China e da Alemanha, por exemplo. Isso nos coloca numa situação muito preocupante para alcançar as metas assumidas em 2016 de reduzir em até 50% as emissões do País até 2030.”
O pesquisador José Marengo, do Cemaden lembra que, no Brasil, tais extremos climáticos também já estão mais frequentes, como nas secas extremas e das enchentes registradas este ano em vários pontos do País, que já deixaram, desde dezembro passado, mais de 500 mortos.
As condições para um possível acordo climático no Egito, portanto, são as piores possíveis, opinou Viola. “Sem nenhum acordo global em vista, a possibilidade de limitarmos a elevação média das temperaturas a 1,5ºC parece cada vez mais distante. Ou, nas palavras do secretário executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, “seguimos caminhando em direção ao abismo”.
