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O INFERNO SOMOS NÓS MESMOS

Oriundo da comédia, o diretor norte-americano Jordan Peele entrou no radar do cinema já com o seu primeiro filme, o terror “Corra!” (2017), que lhe rendeu o Oscar de Melhor Roteiro Original e ligou o alerta da indústria para um jovem cineasta com claro domínio narrativo, capaz de aliar em uma mesma produção ambições autorais com apelo comercial. Dois anos se passaram e a suspeita de que essa qualidade era sorte de principiante caiu abaixo com o recente lançamento de “Nós”. Seguindo os mesmos moldes de seu filme de estreia, “Nós” se fundamenta nos elementos padrões do cinema de gênero para tecer nas entrelinhas uma vibrante crítica às hipocrisias e comportamentos oprimidos da sociedade. Acima de tudo, é um conto aterrorizante, condimentado com pontuais lampejos de humor, sobre enfrentar a pior versão de si.

A premissa é naturalmente desafiadora: quais estratégias usar para vencer um duelo pela vida, sendo que o oponente assume a mesma aparência, pensa igual e tem a mesma força que você? Em outras palavras, trata-se do seu doppelgänger, a cópia maligna de uma pessoa comum. A partir desta ideia, Peele desdobra alguns significados latentes e possíveis deste embate, como o ideário da família perfeita, o tão almejado e catatônico american way of life, a evidência da autorrepressão imposta sobre nós mesmos e alusões sobre temas raciais ainda mal resolvidos, como a escravidão – no filme, as cópias viviam acorrentadas às versões “reais”.

Entretanto, vide o enredo bem articulado e a pluralidade de caminhos para sedimentar a história, o roteiro faz a opção de um filme genuinamente de horror com os dois pés no universo fantástico, com direito a um plot twist que é até questionável a sua real necessidade. O que não há dúvidas é o poder imagético extasiante que Peele invoca em suas produções. É praticamente impossível não ficar absorto com a força e qualidade de sua câmera. Até mesmo quando estamos diante de uma cena familiar e sabemos que, em algum momento, seremos surpreendidos, Peele reverte determinados chavões do gênero e surpreende com muito pouco, seja aquele segundo de delay, o plano pouco convencional ou aquele corte inusitado que faz toda a diferença.

Pois além de ousar com a tradição e desafiar a expectativa do público – é preciso lembrar que espectadores não gostam de serem “enganados” –, é impressionante como Peele não parece fazer muito esforço para que estejamos completamente absolvidos pelos seus filmes, notando-se um exercício magistral de concentração. Obviamente por trás desta façanha há estudo, observação e pesquisa, o que torna ainda mais admirável a desenvoltura do diretor de nos colocar em posição de fascínio e curiosidade perante suas loucuras.

Mantendo o intenso clima de tensão até o final, “Nós” chega ao ápice do brilhantismo em algumas cenas, como o abate de determinados personagens ao som de “Good Vibrations”, do Beach Boys, e “Fuck the Police”, do NWA, importante hino de resistência negra. A propósito, a trilha sonora, tanto a composta pelo ótimo Michael Abels quanto a incidental com canções populares, é de exímia importância para o que Peele tem como finalidade de estimular no espectador, se roer as unhas de nervosismo ou rir de alguma situação. Ainda que seja um competente filme de terror, “Nós” também transparece uma inspirada veia cômica que não se comporta deslocada ou de forma estranha no roteiro, é bem encaixada e pode ser lida como um respiro diante da ansiedade provocada pelo filme.

Por conta de sua performance compenetrada, Lupita Nyong’o já tem lugar cativo no hall das grandes atuações do cinema de horror. A maneira que a atriz imposta a voz, as pausas, a postura, os olhares e as gesticulações, absolutamente todos os trejeitos de sua atuação traz enriquecimento à personagem. O demais membros da família também cumprem muito bem o papel, tendo Winston Duke como o distrativo alívio cômico e o casal de filhos interpretado por Shahadi Wright Joseph e Evan Alex como as revelações do filme, pois é impressionante o que os estreantes alcançam em termos dramáticos, principalmente como a versão “acorrentada”.

“Nós” exibe um tom pessimista e, ao seu modo, desenha a falência do indivíduo enquanto ser único e agente da sociedade, capaz de ser facilmente substituído por uma réplica, porém disciplinada e com mais senso de união – aqui cabe a menção ao evento Hands Across the America, de 1986, nos EUA. Denso e imaginativo, este é mais um belo exemplar de terror idealizado pela mente fértil de Jordan Peele.

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