O líder competente sem empatia pode ser mais perigoso que o incompetente

Nesta semana, uma publicação do UOL trouxe uma provocação importante para o mundo corporativo: existe um líder mais perigoso do que o líder incompetente, que é o líder competente sem empatia. A frase é forte porque desmonta uma ilusão muito comum nas empresas: a de que resultado justifica qualquer comportamento.
Esse tipo de liderança costuma ser protegido pelos números. Entrega metas, resolve problemas, cobra com intensidade e passa a imagem de alta performance. Mas, por trás dessa competência técnica, pode existir um padrão extremamente nocivo: arrogância, impaciência, baixa escuta, excesso de cobrança, humilhação velada e incapacidade de desenvolver pessoas.
É o líder que pensa: “eu sou bom, eu sou acima da média, eu não aceito trabalhar com quem não consegue me acompanhar”. Ou, usando uma frase popularizada pela atriz Susana Vieira: “não tenho paciência com quem está começando”. No ambiente corporativo, esse pensamento pode parecer apenas exigência. Mas, muitas vezes, é o início de uma cultura de medo.
E aqui está o ponto: liderança não é apenas entregar resultado por meio das pessoas. É entregar resultado sem destruir as pessoas no caminho.
A Gallup aponta que o gestor responde por cerca de 70% da variação no engajamento das equipes. Ou seja, o comportamento do líder influencia diretamente o quanto uma equipe se envolve, produz, permanece e confia na organização.
A McKinsey também mostra que comportamentos tóxicos no ambiente de trabalho são o maior preditor de burnout e intenção de saída. Em uma análise global, mais de 60% dos resultados negativos no trabalho estavam associados a comportamentos tóxicos.
No Brasil, o alerta também é sério. Pesquisa citada pela Forbes, realizada pelo Talenses Group, aponta que cerca de 90% dos profissionais afirmam já ter convivido com lideranças tóxicas. E segundo reportagem da Exame, o abuso de poder aparece entre os principais motivos que levam funcionários a pedir demissão.
Esse é o custo invisível do líder competente sem empatia. Ele pode até bater meta no curto prazo, mas deixa um rastro de turnover, silêncio, adoecimento, retrabalho e perda de talentos. As pessoas param de contribuir, param de discordar, param de inovar. Elas apenas obedecem até encontrar uma oportunidade melhor.
E quando a cobrança passa do limite, o problema deixa de ser apenas de gestão e pode se tornar jurídico. Reportagem da Análise Editorial, com base em dados do TST, aponta que em 2025 foram registrados 142.814 novos casos de assédio moral no trabalho, um aumento de 22% em relação a 2024.
Por isso, as empresas precisam rever uma frase muito comum: “ele é difícil, mas entrega resultado”. Essa frase pode estar escondendo um risco enorme. Porque resultado obtido por medo não é cultura de alta performance. É uma bomba-relógio.
Alta performance não combina com humilhação. Cobrança não precisa ser agressão. Exigência não precisa ser desrespeito. E competência técnica não autoriza ninguém a tratar pessoas como se fossem descartáveis.
O líder moderno precisa entender que empatia não é passar a mão na cabeça. Empatia é capacidade de compreender o nível de maturidade da equipe, ajustar a comunicação, ensinar, corrigir, desenvolver e cobrar com justiça.
A empresa que tolera líderes brilhantes, porém abusivos, pode estar premiando exatamente o comportamento que destrói sua cultura.
No fim, o líder mais perigoso talvez não seja aquele que não sabe fazer. É aquele que sabe muito, entrega muito, mas faz todo mundo à sua volta pagar um preço alto demais por isso.
