Interesses

Todas as relações humanas são movidas por interesses. Existem, certamente, relações pouco interessadas e relações muito interessadas, mas não existem relações absolutamente desinteressadas. O que acontece é que nós não gostamos de falar sobre interesses, sobre desejos, sobre ambições, como se essas fossem as principais categorias de pecado.
Nossa primeira relação interpessoal é uma relação intensamente recheada de interesses. O filho, ao nascer, deseja ser alimentado, e ama sua fonte de alimento, deseja o alimento, busca o alimento que precisa para sobreviver. A mãe, que alimenta, precisa do filho para tornar-se justamente aquilo que é, mãe. A mãe que abandona o filho recém-nascido é tida como a pior pessoa do mundo, pois se nega a sustentar a vida de uma pessoa tão frágil, por isso, cada mãe que deseja não ser a pior pessoa do mundo precisa se esforçar para alimentar, nutrir, cuidar de seu filho.
Os casais possuem o interesse mais óbvio, o desejo de ser amado, de ser quisto, de ser desejado. Por isso, cada relacionamento romântico é uma justa troca, em que se deseja ao mesmo tempo em que se é desejado. Quando alguém falha nesse contrato, direciona seu desejo e seu interesse a uma terceira pessoa, quebrando a lógica fundamental da retroalimentação. Ninguém ama de graça. A graça, por sinal, é o formato do amor divino, que salva o ser humano apesar de seu não merecimento fundamental. Eu e você não somos Jesus, não somos o messias, o Deus encarnado que ama até mesmo quem deseja lhe matar. Nós somos humanos, e humanos são um poço de carência, a encarnação da incompletude, da busca constante, da falta manifesta.
Alguns interesses, é claro, são mais justificáveis que outros, mas não deixam de ser interesses. E tudo bem. O problema é fingir, mentir, dissimular. As guerras surgem justamente quando a mentira é adotada como discurso para justificar uma ação. É isso que convence o soldado a dar a vida por sua nação. Se a verdade fosse dita, ninguém sairia de casa, ninguém mataria ninguém. Se o líder dissesse “vamos fazer uma guerra para dominar o outro povo porque eu quero ser o maior de todos, o dominador”, as tropas não se motivariam, não justificaria todo o trabalho de cada um. Justamente por isso é tão comum ver pobre defendendo a política do rico, porque ele não consegue aceitar sua condição de pobre, e dissimula a lógica do mais forte como uma forma de negar a opressão que ele mesmo vive.
A questão é que todos nascemos limitados. Não somos os mais bonitos, mais inteligentes, mais ricos e mais amáveis. Na dificuldade de aceitar que nascemos e morremos nus, sozinhos, e estúpidos, nos interessamos justamente por aquilo que nos conforta, por aquilo que dá a sensação de que a vida é qualquer coisa além disso que ela realmente é.
Cada um vive de acordo com sua própria janela de fantasia, e tudo bem. Talvez, apenas talvez, teríamos menos guerras se fizéssemos mais terapia.
